Livro: Toda Mafalda

Não me lembro do dia em que ganhei essa preciosidade, mas o fato é que cresci lendo as tirinhas da Mafalda.
Tem um pessoal por aí que já ouviu falar e que entende a genialidade do autor – que escreve muita coisa gênia além da Mafalda – mas tem tanta gente que não conhece que me espanta!

Mafalda é uma garotinha argentina que é decepcionada com o mundo e quer entender por que as coisas não funcionam. Ela também quer ajudar e mudar, é claro, mas eu sempre gostei mais do pessimismo sarcástico dela.
Ela é constantemente preocupada com a humanidade e com a paz mundial, e é conhecida hoje mundialmente como A Contestadora.
Mafalda completou 50 anos esse ano, mas seu autor, Quino, diz que o nascimento oficial dela foi quando ela foi publicada pela primeira vez (e não quando ela foi escrita pela primeira vez) e que portanto o 50º aniversário dela será comemorado em 2014. Quino fez 80 anos esse ano.

Além da Mafalda, há toda uma gama de personagens muito bons que a acompanham na vida de classe média dentro da crise.
O pai da Mafalda trabalha para sustentar a esposa e os dois filhos, adora futebol e seu hobby é cuidar das suas plantas.
A mãe da Mafalda administra as contas, cuida da casa e das crianças e ouve constantes comentários da filha sobre ter desistido de estudar para se casar com o marido.

Manolito é o filho do dono da mercearia, e está sempre tentando arranjar um esquema para que os colegas “invistam” dinheiro, seja num calendário de fim de ano, seja em caramelos. Ele é super materialista, sempre preocupado com dinheiro e posses. Mas, fora matemática, ele é um aluno bem ruinzinho.

Felipe é mais velho e é um garoto responsável, porém detesta a escola e seu maior problema é a procrastinação da lição de casa, apesar de ser um bom aluno quando chega a fazê-la.

Suzanita é a típica garota de classe média alta: egoísta, preocupada com as aparências e querendo seguir a vida igual à da sua mãe – que naquela época significava se casar com um homem rico e ter vários filhinhos. Ela é secretamente apaixonada por Felipe.

Miguelito é um pouco mais novo que os demais. É inocente, ingênuo – seu avô idolatra Mussolini e ele acha portanto que Mussolini é o máximo – e um dos personagens mais engraçados. Tem idéias excelentes!

Guile é o irmãozinho da Mafalda, que mesmo quando bebê consegue causar bastante. Mafalda acha difícil fazê-lo entender que esse mundo é esse mundo, e não se conforma com o fato dele gostar de sopa e não achar graça nos Beatles.

E por último mas não menos importante temos Libertad (só consigo pensar nela com o nome original), que tem idéias polêmicas e complicadas demais até para a Mafalda. Libertad tem uma família não convencional para a época: tanto seu pai quanto sua mãe não pararam de estudar para se casar e ambos trabalham.

Mafalda é uma coisa que só vendo para se entender o fascínio que ela causa. Quino sempre foi contestador e revolucionário – quer coisa mais genial do que disfarçar idéias “subversivas” numa tirinha infantil? – mas com Mafalda ele alcançou um sucesso que não envelhece. Não sei se é legal ou triste que as idéias da Mafalda ainda hoje façam sentido.

Afinal, como não gostar da tirinha dela rindo da definição de democracia? Não estamos mais numa ditadura militar, mas também estamos longe de um sistema político eficiente.

E quando a Mafalda fala para o Felipe, há mais de 40 anos, que ela tem medo de que, quando o mundo tiver bilhões de pessoas, as coisas fiquem muito piores e o Felipe responde: “o problema não é o número de pessoas. O problema é o número de idiota. Se o número de idiotas não aumentar, ficaremos bem.”
Eu concordo, mas infelizmente o número de idiotas aumentou proporcionalmente ao número de pessoas.

Enfim. Se nunca leram essa obra prima universal, leiam. Vale muito a pena!

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