Livro: Seguindo a Correnteza

Logo após a 2a Guerra Mundial, a família Cloade está na pior. O irmão mais velho, Gordon Cloade, era um ricaço que sempre pagara todas as contas da família e que sempre tranquilizara seus irmãos e sobrinhos quanto ao futuro, dizendo que ele deixaria dinheiro para todos.

Só que aí acontecem duas coisas com Gordon: 1) ele se casa com uma jovem viúva e 2) morre num bombardeio duas semanas depois.
Daí é lógico que ele não pôde fazer um novo testamento deixando dinheiro para a família após o casamento, e também é lógico que todo o dinheiro dele ficou para a jovem esposa, Rosaleen – que, junto com seu irmão David, sobreviveu às bombas e agora vive na mansão que era do marido.

A família de Gordon não a trata muito bem, e quando surge um boato de que talvez o primeiro marido de Rosaleen não esteja realmente morto, tornando o casamento com Gordon inválido, os Cloades logo se mobilizam para encontrar o primeiro marido dela, custe o que custar.
Até mesmo Hercule Poirot é envolvido na história.

A narrativa segue o ponto de vista de vários personagens diferentes, incluindo Rowley Cloade, um dos sobrinhos do velho rico e sua noiva, Lynn Marchmont, que acabou de voltar para casa após servir na guerra. Além disso, Poirot entra no meio da história com seu ponto de vista sempre interessante.

Eu gostei da pegada meio melancólica do pós-guerra na história, e gostei do mistério também. O meu problema foi o tal romance entre Lynn e Rowley.
Contém spoilers!
Daí ela fala que não quer mais saber dele porque vai ficar com o David. Rowley, louco de ciúmes, tenta estrangulá-la, dizendo que se ela não for dele, não vai ser de mais ninguém, etc. Poirot interrompe essa cena com a maior calma e começa a fazer seu discursinho de “quem matou”, enquanto diz para Rowley dar uma xícara de chá para acalmar Lynn (que não consegue nem falar depois de ter sido quase morta por estrangulamento). Daí turns out que Rowley não é o assassino, que o assassino é o David. Que foge, mas é pego e talz. Daí que os “únicos” crimes do Rowley foram A): ter esmurrado um homem, que caiu pra trás e morreu ao bater a cabeça no batente da lareira, e depois tentar fingir que o “crime” fora cometido por outra pessoa… e B): ter praticamente estrangulado sua noiva até a morte. E Poirot vai embora como se estivesse tudo certo, ok. Até aí, nem é o pior do mundo.
Mas no final do livro, a Lynn volta para o Rowley, dizendo que “quando sentiu as mãos dele tirando a vida dela”, ela percebeu que “só poderia pertencer a ele”. Ele ainda protesta, dizendo, “mas eu tentei te matar!” e ela fala que tudo bem, que sempre quis uma vida aventureira e perigosa.
Fim do spoiler.

Gente…?
Será que eu preciso falar O QUÃO ERRADO TÁ ISSO?
Porque se eu preciso explicar, alguma coisa ainda tá muito errada com o mundo. O livro foi escrito em 1948, então MEIOQUE dá pra desculpar (até porque a Agatha Christie sempre foi das que falam que “mulher que não gosta de homem é feminista” e que “mulher tem que largar da carreira pra ser sustentada pelo amor da vida dela”, mesmo sendo completamente independente do marido financeiramente pela maior parte da vida dela), mas se isso fosse comportamento APENAS da época, ok. Mas não é, né?
O número de mulheres que são mortas pelos ex-parceiros na base do “se não for minha, não vai ser de mais ninguém” é assustador.
E aí tudo começa desse jeito: Outro dia eu tava conversando com uma amiga que me perguntou se eu não ficava feliz com demonstrações de ciúmes do meu marido. E eu disse que não. E ela, “ah, mas nem um pouquinho?”
NÃO. “Mas é só um pouquinho de ciúmes, isso é amor!”.
NÃO. Ciúmes não é amor, ciúmes é possessividade. E eu não sou de ninguém. Só que tem tanta gente por aí que acha “fofo” cenas de ciúmes, e que blás.
E aí a coisa vai ficando mais séria, e você vai aceitando mais demonstrações de “amor”, e quando vê, PIMBA. Tá num relacionamento abusivo. Mas é fofo, vai. Ele te ama!

Desculpa, precisei do desabafo.
Fora essa parte tensa, o livro é bom, ok?

Título original: Taken at the Flood (1948)
De Agatha Christie (Reino Unido)

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