Adaptação: Peter Pan

Peter Pan é uma peça escrita por James M. Barrie no começo do século 20 que conta de um menino que não queria crescer e fugiu com as fadas pra morar na Terra do Nunca, onde vive com os meninos perdidos e combate os piratas do Capitão Gancho. A peça foi transformada em livro pelo próprio Barrie, e foi traduzida para o cinema diversas vezes, as mais famosas sendo ‘Peter Pan’, desenho da Disney de 1953, e o filme de 2003, dirigido por P.J. Hogan, que comento aqui. O Internet Movie Database dá 8 ‘exact matches’, fora os dois já citados, e sem contar com ‘Hook’, de Steven Spielberg, imaginando como seria se Peter Pan crescesse, e ‘Finding Neverland’, filme de Marc Foster sobre a vida de James Barrie.
Peter Pan foi o primeiro livro que eu li. Na verdade, minha mãe lia pra mim antes de dormir, e depois que ela saía do quarto eu ficava lá, brigando com as palavras. Até hoje eu tenho a edição com a tradução da Ana Maria Machado, que tem uma bolinha feita de canetinha no fim do segundo parágrafo do livro. Era pra eu não esquecer onde eu tinha parado de ler na noite anterior.
Eu falava pra minha mãe, ‘se amanhã você vier no meu quarto e eu não estiver, é porque eu fui com o Peter pra Terra do Nunca’. E não, eu não consigo ler o livro sem chorar.
Portanto pra mim é muito complicado separar o filme do livro e assisti-lo sem nenhum preconceito. Acho que se nunca tivesse lido o livro teria achado o filme um bom filme infanto-juvenil de aventura fantástica, já que a direção e os atores estão muito bem conectados. Tendo dito isso, tentarei passar minha opinião de leitora ávida do livro sobre o filme.
Primeiro de tudo é necessário falar que o Jeremy Sumpter é o Peter Pan. Sem mais comentários. E o resto dos personagens também deram certo, e tal. E sim, pra mim a Tia Millicent é total e completamente dispensável, mas entendo porque os roteiristas colocaram ela lá. O que eu não gostei foi a maneira exagerada com que ela empurra Wendy pra vida adulta, falando abertamente do ‘beijo’. O ‘beijo’ pra mim é algo exclusivamente da Senhora Darling, e que se não tinham meio melhor de expô-lo do que fazer Tia Millicent dar o chilique no começo do filme, melhor tirá-lo do filme. E outra coisa, que meleca foi aquela dela chorar pra um menino perdido, que eu não lembro qual era, falando algo como ‘eu sou sua mãe’ e tal? Nada, nada a ver. Na história original, nunca houve pressão em casa para que as crianças Darling crescessem. João e Miguel na verdade se divertiram à beça durante a aventura, apenas Wendy, por ser menina e mais velha, percebeu realmente o que se passava em relação ao conflito ‘crescer x ficar criança pra sempre’.
Legal o Jason Issacs ser tanto o Senhor Darling quanto o Capitão Gancho, algo que o próprio Barrie sugeria ser feito nas montagens da peça. Fora que ele é o Capitão Gancho, algo que me irritou profundamente no desenho da Disney. Eu sei que os vilões engraçados são mais… engraçados, e temos que pensar nas crianças e tal (lembrando que a peça não foi escrita para as crianças, apenas pensando nelas), mas não precisavam fazer ele ridículo. Eu tenho orgulho de ter medo do Capitão Gancho, já que ele representa tudo de ruim que os adultos podem se tornar, e a real razão pela qual não queremos crescer: ele não acredita em nada que não o ‘bom tom’, não gosta de fazer nada que lembre algo da sua infância, não tem compaixão pelos outros por querer ser o melhor de todos. Ele não odeia Peter apenas por Peter ser uma criança – e por ter cortado sua mão e a jogado ao crocodilo =) – mas porque Peter consegue fazer coisas sem o menor bom tom e não se sentir nem um pouco preocupado com isso. Porque Peter, por outro lado, com sua alegria e despreocupação, representa algo que vai contra tudo o que Gancho acredita. Gancho é o tempo, inexorável e infalível, e Peter é o que temos de manter em algum lugar dentro de nós, ou realmente nos tornaremos um Capitão Gancho. Jason Issacs consegue sintetizar o personagem na cena em que ele olha pra uma fada e diz ‘eu não acredito em fadas’, e a fada morre! Porque sempre que alguém diz que não acredita em fadas, uma fada morre em algum lugar. Mas quantas pessoas no mundo conseguiriam ‘não acreditar’ numa fada num lugar como a Terra do Nunca, com uma fada na sua frente? Só o Capitão Gancho.
Na verdade o que mais me irritou no filme foi a história do beijo. Primeiro que o Capitão Gancho consegue de alguma forma tirar a alegria do Peter, e Peter não consegue mais voar. Gente, o Peter não ser mais alegre e não conseguir mais voar, só se ele morresse. Porque a alegria faz parte dele de tal forma, que ele prefere sair do lugar e esquecer tudo do que enfrentar a realidade. Fora que o Capitão Gancho conseguiu fazer Peter ‘não voar’ falando algo do tipo ‘Wendy não gosta de você, ela prefere crescer do que ficar com você’. Peter nunca se importaria muito com isso, porque ele despreza todos os que querem crescer, e ficaria magoado por um minuto e depois esqueceria. Ele é uma criança egoísta, after all, e seu amor por Wendy não vai além de uma amizade especial. Wendy, sim, podemos considerar que tinha ‘a crush‘ em Peter, e por isso ficava tão indecisa sobre voltar pra casa e crescer (e casar e ter filhos) e ficar na Terra do Nunca com Peter.
Mas o fato é, de tão feliz que Gancho fica, ele também voa! COMO ASSIM. Não é só birra por Gancho nunca ter voado no livro, é simplesmente porque voar é completamente contra a personalidade básica de Gancho. Ele nunca conseguiria voar usando o pensamento feliz ‘eu vou derrotar Peter Pan’. Mas voltando à cena, Wendy dá um beijo na boca de Peter, ele fica feliz e volta a voar e eles derrotam Gancho. Como se a história fosse sobre sexualidade, meninas crescem mais rápido do que meninos, vilões e mocinhos e ‘quem consegue ter o pensamento mais feliz por mais tempo’.
Sim, a sexualidade está presente em todo o livro, ou Wendy e Peter não seriam ‘casados’ e pais dos outros meninos perdidos na brincadeira de faz-de-conta. Mas o que ficou mais do que claro pra mim, no livro, é que Barrie considerava fator-regra para crescer o fato de ter filhos, e não a sexualidade. Wendy fica balançada sobre se deve ou não voltar pra casa por causa da vontade dela de ser mãe. É o que ela pede quando os meninos perdidos vão fazer a casinha pra ela: ‘uma casa com janelas e bebês olhando por elas’. Ela não quer ser criança pra sempre porque ela quer ser mãe. Lembrem-se de que Wendy era menina e tinha sensatez suficiente pra perceber que a vida dos meninos perdidos era completamente desorganizada sem uma ‘mãe’, e que Peter não era boa companhia por esquecer de tudo toda hora e só pensar em aventura e tal. Ele era criança, com todas as partes ruins que isso traz.
Uma frase do começo do livro é ‘a sra. Darling tinha a impressão de já ter visto a expressão de Peter em outros lugares antes, em alguns rostos de mulheres que não tiveram filhos’. Para Barrie, a ‘adultice’ só chega quando se tem filhos. É algo que Spielberg capturou muito bem em seu filme ‘Hook’, e que infelizmente Hogan deixou passar.
De qualquer forma, (agora que já terminei de falar dos pontos contra), o filme capturou a maior parte do espírito da aventura, algo que o filme da Disney não tinha chegado nem perto de fazer. A fantasia e a magia estão com certeza presentes no filme, e com as atuações convincentes do elenco e a direção de Hogan, é um ótimo filme que conseguiu capturar a maior parte do universo de Peter – principalmente considerando que não é uma história exclusiva para crianças.
E, pra finalizar, algo que o filme não mostra e que faz toda a diferença pra mim. O filme acaba com Wendy pedindo pra Peter não esquecer dela, e depois falando que ela nunca mais o viu mas contou a história para seus filhos. Engraçado que o próprio filme fez com que Peter se importasse um monte com Wendy –  a ponto de não voar por estar triste que ela ia embora, e a ponto dela dar ‘o beijo’ pra ele – e acaba desse jeito, sem ele nem voltar pra vê-la.
No livro, (algo que o filme de Spielberg também resgata), Peter fala que vai voltar toda primavera, pra levar ela pra Terra do Nunca e ter mais um monte de aventuras. Ele lembra, de vez em quando. Pula algumas primaveras, mas aparece. Esquece a maior parte das aventuras que eles tiveram da primeira vez (‘quem é Sininho?’), mas aparece. Até que encontra Wendy adulta esperando por ele.
“Depois, acendeu a luz e Peter viu. Deu um grito de dor. E quando aquela criatura alta e bonita se aproximou para pegá-lo o colo, ele recuou abruptamente.
– Que foi que aconteceu?- perguntou de novo.
Ela teve que contar.
– Fiquei mais velha, Peter. Já passei muito dos vinte. E cresci há muito tempo.
– Mas você prometeu não crescer.
– Não dava pra evitar. Eu casei, Peter.
– Não! Não casou…
– Casei, sim. E a menininha que está na cama é minha filha.
– Não é, não.
Mas achou que era. E deu um passo em direção à criança adormecida, com a adaga levantada. É claro que não deu golpe nenhum. Em vez disso, sentou-se no chão e soluçou. Wendy não sabia o que fazer para consolá-lo, embora antigamente pudesse fazer isso com tanta facilidade. Mas agora ela era apenas uma mulher e saiu do quarto correndo, para tentar pensar.
Peter continuou a chorar. Daí a pouco seus soluços acordaram Jane. A menina se sentou na cama, e logo ficou interessada.
– Menino – perguntou -, por que é que você está chorando?
Peter se levantou e fez uma curvatura, saudando-a, e ela o cumprimentou da cama.
– Olá – disse ele.
– Olá – disse ela.
– Meu nome é Peter Pan.
– Eu sei.
– Eu vim buscar minha mãe, para ela ir comigo para a Terra do Nunca.
– Eu sei – disse ela – E já estava te esperando.
Quando Wendy voltou, insegura, encontrou Peter sentado no pé da cama, dando um cocoricó glorioso, enquanto Jane, de camisola, dava voltas pelo quarto, em êxtase.
– Ele precisa tanto de uma mãe… – explicou Jane.
– Eu sei – admitiu Wendy, numa mistura de tristeza e saudade. – Ninguém sabe disso melhor do que eu.
– Tchau… – disse Peter para Wendy, levantando vôo em companhia de Jane, perfeitamente à vontade. Para ela, já era a maneira mais fácil de ir de um lado para outro.
Wendy correu para a janela.
– Não! Não! – gritou.
– É só agora na primavera, mamãe, para dar uma limpeza geral – explicou ela. – Ele quer que eu sempre vá ajudar na faxina da primavera.
– Eu queria tanto ir com vocês… – suspirou Wendy.
– Mas você não pode mais voar, não está vendo? – disse Jane.
É claro que, no fim, Wendy deixou os dois irem. A última vez que olhamos para ela vemos que está junto da janela, vendo os dois irem cada vez mais longe no céu, até ficarem pequenininhos, do tamanho das estrelas.
Se você olhar para Wendy agora, vai ver o cabelo dela ficando grisalho e seu vulto se encolhendo, porque tudo isso aconteceu há muito tempo. Jane agora é uma adulta comum e tem uma filha chamada Margaret. Toda primavera, quando é hora da faxina – a não ser quando ele esquece – Peter vem buscar Margaret e a leva para a Terra do Nunca, onde ela conta histórias dele mesmo, que ele ouve deliciado, com a maior atenção. Quando Margaret crescer, vai ter uma filha, e vai ser a vez dela ser a mãe de Peter. E assim por diante. Enquanto as crianças forem alegres, inocentes e sem coração.* “
Peter Pan (idem) – 2003
de P.J. Hogan

com: Jeremy Sumpter, Rachel Hurd-Wood, Jason Issacs, Lynn Redgrave, Olivia Williams
trecho do livro Peter Pan, de J.M. Barrie e tradução de Ana Maria Machado, exceto pela última frase, que foi traduzida de forma diferente.*

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