Livro: O Júri

runaway juryE olha que nunca tinha lido John Grisham?
Claro que já assisti um montão de filmes que foram baseados nos livros dele, mas como sempre achei que ele fosse uma Danielle Steel dos suspenses da vida, nunca tinha me interessado.
Aí eu assisti O Júri, com a Rachel Weisz, o John Cusack e os gênios Gene Hackman e Dustin Hoffman, e quando vi o livro no sebo acabei comprando.
E só posso dizer que daqui pra frente vou engolir meus preconceitos contra best sellers.
O livro é muito bom.
Tudo bem que eu meio que sabia o que esperar, porque o filme, apesar de focar a trama na indústria de armas e não na indústria tabagista, tem uma trama bastante parecida. Talvez seja por isso que eu não cortei os pulsos de nervosismo (ou não, já que comecei a ler o livro ontem e dormi só quatro horas pra continuar lendo hoje e terminei agora no meio da aula), mas de qualquer forma é uma narrativa envolvente e uma trama impecável.
O mais legal é que ninguém é o bonzinho da história. Rohr, o advogado de acusação, não está lá para proteger os interesses da viúva de um homem que morreu de câncer de pulmão depois de fumar por quarenta anos. Ele está lá para fazer história: assim que a indústria tabagista perder um desses casos, todos vão querer processá-los pelos mesmos motivos, e então Rohr fará fortuna. Quando começa a achar que o júri está indo pro lado da defesa, não hesita em mandar um dos seus para subornar o marido de uma das juradas em troca de um veredito favorável.
Já a defesa conta com um gênio: Fitch, consultor de júris, manipulador e desonesto. Ele passa o livro inteiro protegendo os interesses dos seus clientes (as companhias produtoras de cigarro). Sua manipulação vai até o ponto de encomendar e financiar (com o dinheiro das produtoras de cigarro) uma pesquisa que demonstre que não há motivos para dizer que o cigarro cause doenças e morte; fazer com que uma empresa seja comprada para que um dos jurados mude de empregador e, therefore, de opinião sobre o caso; mandar agentes fingindo que são do FBI para assustar o marido de uma jurada e fazer com que ela mude de opinião; achar um abordo secreto de outra jurada e ameaçar contar a história ao marido dela se ela não votar pela defesa.
Um dos motivos pelos quais o livro é tão interessante é a pesquisa que o autor obviamente fez para descrever com credibilidade os mecanismos de uma corte civil norte-americana. Como o livro é de 1996, as companhias de cigarro ainda repetiam a lenga-lenga de que não sabiam que o cigarro causava dependência ou câncer e que era livre arbítrio consumir quantos cigarros a pessoa quisesse.
Ao mesmo tempo em que o júri é manipulado tanto por agentes da defesa quanto da acusação, uma misteriosa moça pede 10 milhões para fazer com que o veredito fique de acordo com o gosto do freguês, usando um agente que ela tem no melhor lugar possível: ele é um dos jurados.
Além de ser um thriller competentíssimo e bem fundamentado – existiram mesmo casos desse tipo nos EUA -, os personagens são cativantes e é impossível não comemorar com a dupla de protagonistas no final.
A gente que vive no mundo de hoje esquece que não faz nem dez anos que as propagandas de cigarros foram proibidas, e que há menos tempo ainda as empresas foram obrigadas a divulgar no próprio pacote de cigarro que aquilo é prejudicial à saúde, e que só agora o fumo deixou de ser permitido em lugares fechados. Se pensarmos que por quase setenta anos as pessoas fumavam porque era legal e não tinham a menor idéia de que aquilo fazia mal até morrerem de câncer, é interessante pensar que a indústria tabagista passou a perder dinheiro e credibilidade depois que as pessoas que haviam fumado três maços por dia por quarenta anos começaram a morrer.

5 ideias sobre “Livro: O Júri

  1. Concordo exatamente com você. Já assistisse o filme “Obrigado Por Fumar”.. é sobre o mesmo tema, mas sob o ponto de vista de um lobista da industria tabagista. Muito bom…
    Boa semana pra vc =o***

  2. Olá!
    Vc tirou um peso da minha consciência!
    Tinha a mesma opinião que vc, tenho o livro “Tempo de Matar” do John Grisham e ainda não o li.
    Vou dar uma chance.

    Bjs

  3. Você precisa ler “The Appeal”. Fantástico. The Client, The Firm, O dossiê Pelicano, todos os livros deles são demais (só não gostei de “A painted house”, que não é relacionado ao direito.

    Nessa base dos bestsellers, dá pra aproveitar muita coisa, ainda mais quando você quer ler algo rápido, fácil e que não tefaça pensar muito! Adoro JG, 100% aprovado. Não li esse porque tinha visto o filme, nem sabia que eles tinham mudado do tabaco pras armas… anyway, genial, não?

    Beijos

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