Livro: A Companhia Negra

Nesse primeiro livro da série, ficamos conhecendo a fascinante rotina de um exército de mercenários a serviço da feiticeira maligna que quer dominar o mundo.

A Dama, feiticeira maligna senhora da escuridão e do desespero, está de volta após um sono de centenas de anos. Seus servos são os Tomados, magos criadores de horror e destruição que tiveram suas almas corrompidas e se transformaram em verdadeiros monstros. O objetivo dela: conquistar o mundo, transformando todos os reinos livres em partes do seu domínio.

Para isso, ela conta não só com inúmeros exércitos e seus feiticeiros horrorosos, como também com os serviços da Companhia Negra – um grupo de mercenários que tem como regra principal honrar seus contratos. Narrado por Chagas, o médico e crônico da Companhia, o livro segue a campanha da Companhia Negra desde logo antes de serem contratados pelo Apanhador de Almas (um dos Tomados menos terríveis) até a batalha final nos portões da fortaleza da Dama, pela honra e pela liberdade – em que a Companhia luta do lado das forças do mal.

Com essa premissa extremamente interessante de mostrar a história do lado dos maus, o livro ganha uma força que o colocou entre os precursores da ‘dark fantasy’. Os soldados da Companhia não são exatamente malignos, são apenas mercenários que lutam em guerras infindáveis e por isso se importam pouco com qualquer coisa que não seja: quando vamos parar para descansar e quem ganhou mais dinheiro no jogo de cartas. Se por um lado isso deixa todo mundo com uma personalidade fria, por outro deixa a narrativa com realismo cético surpreendente; afinal, são dezenas de anos matando, pilhando, torturando e colocando fogo em tudo, não dá pra esperar que sejam homens com coração leve e sonhos esperançosos.  O narrador se infiltra em uma sessão de tortura dos aliados do Círculo (grupo de feiticeiros ‘do bem’ que tem como missão acabar com a Dama e seus Tomados) e comenta que as técnicas deles não eram diferentes das usadas pelos ‘do mal’, e a mensagem é clara: não existe lado bom numa guerra, só depende do seu ponto de vista.

Pontos que podem ser negativos na verdade enganam. Os personagens são rasos, sem graça e mal descritos. As batalhas quase não aparecem. A violência é tratada com naturalidade. E tudo isso faz sentido: os personagens são mal descritos porque são os amigos do narrador, e ninguém precisa descrever amigos! As batalhas não aparecem porque, para o narrador, são todas tão parecidas que se confundem na memória dele, e o que importa é quem sobreviveu. A violência é tratada com naturalidade porque para eles todos ela virou natural. O passado do autor como fuzileiro naval e o fato de que o livro é um favorito entre ex-militares mostra que de alguma forma ele acertou a mão com essa forma de escrever. Apesar dos personagens serem em geral sem muita graça, os poucos que aparecem melhor são memoráveis e fiquei curiosa para saber o futuro deles.

Mas infelizmente não é uma leitura fácil: Com cerca de 300 páginas, a tradução primorosa em português conseguiu melhorar o texto original, que é confuso, cheio de termos chulos, apelidos sem sentido e frases de efeito inventadas. Glen Cook tem um estilo complicado de gostar e deixou as coisas mais chatas aqui com essa mania de pular duas linhas do livro e dois meses na narrativa. O narrador Chagas está escrevendo as memórias dele e não parece se importar que alguém vá ler, pula de um lado pro outro da história e não explica nada do que está acontecendo: são batalhas de meses resumidas em duas linhas, violências horríveis que viram “ela seria bonita se não tivesse sido tão abusada” e apenas uma ou duas cenas de ação que são de fato organizadas pelo narrador – mas é tudo tão confuso que não dá pra saber o que está acontecendo. Quase pensei em reler algumas partes para conseguir me achar, mas no fim das contas fiquei com a impressão de que não importava muito – e eu estava certa. A trama parece que vai para os lugares mas na realidade não vai pra lugar nenhum, e só nas últimas trinta páginas que vemos alguma coisa acontecer. Eu sei que é o primeiro livro de uma série, mas mesmo assim: o plot twist na realidade é TODO O PLOT, e se não fosse um livro tão rápido de ler, eu teria desistido no meio. Não é uma leitura fácil.

Se você se interessa em ler um dos pioneiros da dark fantasy, se interessa por vida no exército e se contenta com pinceladas sobre o mundo e está disposto a descobrir mais sobre o universo nos próximos livros da saga, eu super recomendo esse livro: com uma dose de narrativa sombria que conseguiu não me fazer largar o livro (e eu sou nojenta com essas coisas de violência), uma ideia original bem executada e uma narrativa que, por mais que tenha uma trama pouco movimentada, é rápida de ler, esse foi um livro que me deixou entretida e interessada na história. E pode até ser que eu leia os próximos 🙂

The Black Company (1984) de Glen Cook. Série The Chronicles of the Black Company Livro 1

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