Livro: Golden

Eu gosto de contos de fadas e eu gosto de livros que reimaginam contos de fadas. Quem não entende do assunto pode achar que reescrever um conto de fadas não pode ser tao difícil. Afinal, é só pegar a história tradicional e mudar algumas coisas para fazer com que a faixa-etária-objetivo se identifique mais com os personagens/trama/ambientação. Ou vai que você é um autor que tem muitas ideias geniais que vão acrescentar nova vida a um conto pouco conhecido; enfim, as possibilidades são infinitas. E o material “original” também parece ser infinito. Mas claro que a maioria dos autores vai o que? Pois é: adaptar sempre os mesmos contos.

Essa resenha contém spoilers.

A Cameron Dokey, uma autora americana bastante conhecida, tem lá sua série de contos de fadas e esse é um deles. Ela escolheu o super original Rapunzel. Quem lembra? A Disney fez uma versão e de repente todas as crianças estavam me corrigindo quando eu falava do príncipe que escalava a torre (“não é príncipe”, com aquela voz debochada, “é um ladrão!” e dá vontade de sacudir a pirralhada e falar que eu manjo muito mais de contos de fadas que elas e bom, e melhor parar por aqui). Mas a versão mais conhecida – que, tá, não deve ser considerada muito apropriada pelos pais frescurentos de hoje, é que a Rapunzel tava lá na torre e tal, e a bruxa gritava “Jogue suas tranças!” e a Rapunzel jogava as tranças douradas que nunca tinham sido cortadas. E aí o príncipe ouve a voz angelical da moça, espiona a bruxa subindo, e, num dia que a bruxa não tá, resolve disfarçar a voz e, quando Rapunzel joga as tranças, oh! Tá lá o novinho.

Tem várias versões de como a bruxa descobre que a Rapuzel está sendo sapeca, mas na maioria delas a bruxa chega de surpresa, joga o príncipe pela janela (ele cai nuns espinhos e fica cego), corta o cabelo da Rapunzel e joga a menina no mundo.

A Rapunzel tem gêmeos (só caso algum puritano estivesse duvidando do tipo de conversa que ela e o príncipe tinham na torre) e fica vagando pelo mundo cuidando das criança. Aí um dia ela tá num deserto, encontra o príncipe cego, chora na cara dele, e as lágrimas dela curam a cegueira dele e vivem felizes pra sempre fim.

A Cameron Dokey pegou essa história e parece que fez assim: ain, que coisa mais pesada, não posso ter meninas grávidas nem príncipes cegos porque essa é uma história pra JOVENS ADULTOS (que é o termo editorial para gente chata dos treze aos dezesseis anos). Então tira tudo isso. E também uma bruxa má que prende uma criança numa torre: pesado isso. Então sem bruxa má, agora é uma bruxa boa. E também não posso ser ÓBVIA, porque apesar de ser um livro novo, é de se supor que a leitorada já conheça a história e não queira ler tudo de novo, daí preciso INOVAR. Que tal se a Rapunzel, em vez de ter longos cabelos loiros, for CARECA? Genial, vai.

Ok, não vou discutir a tal da calvície. A menina sofre preconceito e tals, e a bruxa BOA resolve criar a pirralha, e ela anda por aí com turbante na cabeça e aprende a fazer magia pouquinha coisa e aparentemente se apaixona pelo aprendiz do caixeiro viajante que de vez em quando visita ela e a bruxa. A aldeia dos plebeus ignorantes vem atrás delas porque queimem as bruxas e elas são forçadas a fugir e super triste e tal.

Tudo isso e já passou da metade do livro e eu: cadê torre? Cadê príncipe? E – meio importante – CADÊ TRANÇAS?

Daí quando elas fogem a bruxa boa resolve fazer uma REVELAÇÃO SURPREENDENTE que primeiro que não é surpreendente (ó, tem uma mina de longos cabelos dourados presa numa torre – ops era isso que todo mundo estava esperando desde a página um) e segundo que não faz o menor sentido: um mago maligno prendeu a filha da bruxa numa torre por que magos são malignos – tipo, tem uma explicação que não explica nada, e apesar de nenhum dos envolvidos entender nada, toca pra frente porque o livro tá acabando.

Aparentemente, a única forma de salvar Rue, a filha da bruxa presa na torre, é se a Rapunzel for lá, ficar presa na torre ca menina, e salvar a pobre do terrível destino de ficar presa na torre pra sempre. Ir trocar uma idéia com o tal mago: não consta. E explicar porque raios a filha adotiva da bruxa vai conseguir fazer alguma coisa pra salvar a filha verdadeira: também não parece ser prioridade.

Aí primeiro a Rapunzel fica maior #chatiada porque como sua mãe adotiva tinha uma filha presa numa torre por toda a eternidade e nunca falou nada? E será que ela gosta mais dela do que de mim? E sono. E depois ela resolve ser uma jovem forte e vai lá se enfiar na torre com Rue, que também está na vibe “minha mãe adotou outra filha, ela não gosta mais de mim”. E as duas tem que se entender porque precisam descobrir como acabar com a maldição antes que o tempo acabe (sim, tem um tempo limite; não, não tenho idéia de como nem porquê. Nem nada.).

Bom, isso faltava tipo vinte páginas pra acabar o livro e eu OK, TEMOS TRANÇAS mas nada de príncipe e nada disso faz o menor sentido e aí TCHANAAAN temos um príncipe. Que começa a conversar com a Rapunzel sem vê-la, e ele a acha muito simpática, e a Rapunzel tme a idéia genial de fazer a Rue e o príncipe se apaixonarem porque o amor salva. E apesar de umas ceninhas de ciúmes do aprendiz de caixeiro viajante (af, tá quase porqueiro assistente dos livros de Prydain, falaê), e apesar do príncipe só ter conversado com a Rapunzel, ela joga a Rue pra frente do parapeito da torre, e o príncipe vê Rue e é amor à primeira vista e todas as moças tem voz igual e falam do mesmo jeito, porque ele nem repara na diferença (ou ele tá é apaixonado pela imagem da bela moça de cabelos longos e dourados, ok).

Então fora a amiga intrometida, a história da moça no alto da torre segue mais ou menos a história que conhecemos nos contos de fadas, mas o que isso tem a ver com a Rapunzel do livro, que é careca, nunca ficou presa numa torre, quer o aprendiz de caixeiro viajante e não o príncipe, etc?

SIMPLES, no fim a Rapunzel desencana do próprio nome e deixa a Rue ficar com ele (explicação: foi esse o nome que ela deu pro príncipe quando conversou com ele sem ele vê-la, e pra manter a enganação, Rue falou pra ele que se chamava Rapunzel). E a nova Rapunzel (a das tranças) vai morar com o príncipe, e a Rapunzel antiga escolhe um nome bonito pra ela com a ajuda do aprendiz de caixeiro viajante e todas vive feliz pra sempre fim. Entenderam??

Cara, eu me divirto tão mais escrevendo aqui do que lendo essa droga que só tenho a dizer que pra alguma coisa o livro serve, vai. Só pra constar então: não percam o seu tempo precioso; esse livro não faz o menor sentido; é a história de uma mina aleatória careca que chama Rapunzel durante 80% do livro e nos outros 20% onde de fato acontece algo que lembre a história do conto a coisa é tão rápida e sem graça que não vale a pena mesmo.

O que me leva a uma triste constatação. Dos nove livros da série da autora que reconta contos de fadas, eu li cinco. E não sei se vale a pena os outros, pela média. Ó (ordem de publicação):

  • The Storyteller’s Daugher (Mil e Uma Noites) = muito legal;
  • Beauty Sleep (Bela Adormecida) = auto-citação: para crianças/vale o tempinho gasto;
  • Golden (Rapunzel) = muito ruim;
  • Before Midnight (Cinderella) = começo bem bom, final estraga. Veredito: meh;
  • Belle (A Bela e a Fera) = começo bom também, depois vira cópia de Beauty (que foi escrito antes né) e o final é tipo: Não.

Então né, acho que é meio arriscado ler os outros. Mas, num dia de chuva, quem sabe. Para esse, fica a dica que não é dos mais interessantes não.

Informações técnicas: Golden (2006) de Cameron Dokey. Série Once Upon a Time – Livro 4.

 

2 ideias sobre “Livro: Golden

  1. Oi Renata, não sou muito de escrever comentários as resenhas que leio, mas nesse não tive como, não li o livro e nem pretendo, pois ler a sua resenha já me divertiu Muuuuuito, amei! Será a primeira de muitas resenhas, vc foi muito criativa e engraçada, parabéns!

  2. oiii, adorei suas resenhas, como você consegue esses livros em inglês, você os le em inglês mesmo ou achas traduzido em algum lugar?

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