Divagação: Super-Crianças nos Livros Juvenis

Pessoas já me disseram que não gostam de livros juvenis porque os personagens crianças são ninjas demais. Ou seja, têm atitudes e poderes de gente adulta e são rodeados de adultos bobos que deixam para os pirralhos a missão do herói.

Apesar de concordar com a ninjice dos pequenos, isso não chega exatamente a me incomodar – afinal, quase todos muitos livros juvenis tem personagens crianças que são os protagonistas que salvam o mundo, e se isso me irritasse eu totalmente seria incapaz de continuar fã do gênero por muito mais tempo.

A questão que fica é: por que super crianças são necessárias?

Dá pra argumentar que é porque o leitor criança gosta de se identificar com o protagonista criança.

Quer dizer que qualquer livro que não tenha protagonista criança não será querido da pirralhada?

Não é bem assim, eu acho, já que eu mesma gostava de muitos livros quando era criança que não tinham protagonistas da minha idade (Volta ao Mundo em 80 Dias é um excelente exemplo).

Ou seja. O protagonista não precisa ter a mesma idade do leitor para que este se identifique com aquele, ou goste do livro.

Muitas vezes, o leitor não quer ver uma pessoa da mesma idade que ele fazendo as coisas no livro.

Outra coisa. Eu gosto de muitos livros juvenis que não tem protagonistas crianças OU cujos protagonistas crianças não são super-crianças.

Explico-me.
Enquanto Harry Potter e seus coleguinha, pra não mencionar Artemis Fowl, e Percy Jackson, e mais incontáveis outros, fazem missões interplanetárias com direito a viagem no tempo e momentos de ação maior que a vida, temos Jim sendo o herói de A Ilha do Tesouro mas ao mesmo tempo sendo uma criança: ele tem todas as vantagens (fofo, pequeno e rápido) e desvantagens (ingênuo, medroso e fraco) de uma criança real, e no entanto (ou talvez por isso mesmo) consegue segurar a peteca mais do que bem ao ir até o Caribe encontrar um tesouro enterrado e lidar com piratas malignos no processo.

Lyra, em Fronteiras do Universo, passa por poucas e boas: sempre levada e protegida ou por aeronautas texanos, ou por guerreiros gípcios ou por ursos de armadura.
Deu pra entender onde eu quero chegar?

Não é necessário que a criança tenha poderes de adulto para que seja feita uma boa história. Aliás, um dos principais elementos de uma boa história (a verossimilhança) acaba obviamente surgindo do fato de se o protagonista faz sentido dentro do universo que o autor cria.
Estamos falando de protagonistas, que naturalmente têm destinos épicos e poderes infinitos, mas que tal se os adultos que rodeassem as crianças ninjas não fossem tão tapados?
Dumbledore vai tomar chá no ministério enquando a Pedra Filosofal está sendo roubada, e, certo de que seu favorito Harry conseguirá resolver o problema da Câmara Secreta, manda um chapéu, uma espada e uma fênix para ajudarem na luta contra um dos bruxos mais poderosos do mundo. E o Harry tem DOZE anos! DOZE.

Os pais do Artemis Fowl parecem completamente ignorantes do fato de que seu filho é um gênio do crime com direito a alta tecnologia e conversas com o povo das fadas.
Outros livros juvenis possuem apenas crianças órfãs para não terem que se preocupar com a ambientação do mundo dos adultos.

Enfim. Eu sou uma enorme fã dos livros juvenis, mas tenho que admitir que os autores andam forçando a barra. Ainda bem que hoje em dia o que domina são as séries, que podem durar quinze livros, os personagens crescem e as coisas passam a fazer mais sentido.

Uma ideia sobre “Divagação: Super-Crianças nos Livros Juvenis

  1. Quando eu estava na segunda-série li umas 10 vezes “A serra dos dois meninos” do Aristides Fraga Lima. São dois meninos que se metem numa mata pra procurar um esconderijo de cangaceiros e subir numa serra onde se pode ver o mundo todo e acabam se perdendo.

    Acho que tem muito também, da “criança ideal” um perfil heroico bem tradicional… desde o Pequeno Polegar e João e Maria, acho. Corajosa, inteligente, inocente, às vezes e às vezes percebe muito mais do que os adultos imaginam. É mito antigo!

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