Divagação: Por Que Não Gosto do Poirot

Albert Finney foi Poirot em 1974

Veja bem, não é que não gosto dos livros em que ele aparece. Muitos eu até me divirto bastante lendo. Mas outro dia fiz uma lista dos melhores detetives da literatura na minha opinião e surgiu a pergunta: cadê o Poirot?

Hercule Poirot é um detetive criado pela autora britânica Agatha Christie. Ele aparece pela primeira vez no livro O Misterioso Caso de Styles e detecta assassinos com sua ordem e método em cerca de 30 livros e 50 contos ao longo das publicações da autora.

Ele é belga, gordinho, orgulhoso por ter um bigode impecável, obcecado pela ordem e pelo método e tem como coadjuvantes em suas aventuras o metódico e silencioso mordomo Georges, a mecânica e austera secretária Miss Lemmon, a afobada e confusa escritora Mrs. Oliver, o cético porém simpático inpetor Japp da Scotland Yard e o puxa saco e às vezes narrador Capitão Hastings.

Ele é sem dúvida o mais famoso detetive criado pela mais famosa escritora de romances policias do mundo. E eu o acho bastante insuportável.

Infelizmente não é tudo por culpa dele, é muito mais culpa da Agatha Christie que, com tanta imaginação na cabeça, pegou um Sherlock Holmes que já existia e transformou ele num gordinho belga.
Claro, gente, a personalidade dos dois detetives é totalmente distinta, mas os métodos dos dois são extremamente parecidos.
E então temos o Hastings.
Juro que nos livros em que o Hastings não aparece eu até gosto do Poirot – não a ponto de achar ele um dos melhores detetives da minha lista, mas mesmo assim. Eu gosto.

Alfred Molina foi Poirot em 2001

Mas agora vamos analizar o papel de Hastings nos livros.
E, melhor ainda. Vamos analizar o papel de Watson nos livros com Sherlock Holmes – que, como sabem, foi publicado até pouco antes da Agatha Christie começar sua carreira como escritora.

Watson – é um médico do exército que foi ferido na perna durante a guerra e agora está em Londres sem ter onde morar e sem ter do que viver.
Hastings – é um oficial do exército que foi ferido na guerra e anda procurando um jeito de conseguir dinheiro agora que está em Londres.

Watson – acompanha o detetive Sherlock Holmes em muitos dos seus casos e narra-os ao público.
Hastings – acompanha o detetive Hercule Poirot em muitos dos seus casos e narra-os ao público.

Watson – em um dos casos com Holmes, conhece Mary Morstan, com quem se casa depois, para tristeza de seu colega detetive. Após o casamento, Watson se muda para longe de Holmes, e os dois só se encontram durante casos esporádicos.
Hastings – em um dos casos com Poirot, conhece Dulcie Duveen, com quem se casa depois, para tristeza de seu colega detetive. Após o casamento, Hastings se muda para longe de Poirot, e os dois só se encontram durante casos esporádicos.

Watson – Holmes sempre acusa Watson de ter uma mente simples, de não prestar atenção a detalhes e de sempre acreditar nas mulheres bonitas e nos homens simpáticos. Holmes, por sua vez, tem grande atenção a qualquer coisa relacionada e não relacionada ao crime em questão e sempre desconfia de tudo e de todos. Muitas vezes, no entanto, Watson acaba chamando a atenção, sem querer, para algum detalhe que é crucial para a resolução do caso e ajuda Holmes a solucionar o problema.
Hastings – Poirot sempre acusa Hastings de ter uma mente simples, de não prestar atenção a detalhes e de sempre acreditar nas mulheres bonitas e nos homens simpáticos. Poirot, por sua vez, tem grande atenção a qualquer coisa relacionada e não relacionada ao crime em questão e sempre desconfia de tudo e de todos. Muitas vezes, no entanto, Hastings acaba chamando a atenção, sem querer, para algum detalhe que é crucial para a resolução do caso e ajuda Poirot a solucionar o problema.

David Suchet foi Poirot de 1989 até 2012

Bom. Vocês conseguiram entender meu ponto. Mas não é só isso. Christie conseguiu diferenciar Hastings de Watson, mas da pior forma possível.
Enquanto Watson sempre confia em Holmes e nas poucas vezes em que acha o colega meio louquinho atribui isso a uma temporária crise de nervos – não se esqueçam de que Holmes é viciado em cocaina – , Hastings SEMPRE duvida da capacidade de Poirot porque “ele está ficando velho”. Da primeira vez que isso acontece – no primeiro livro em que aparecem juntos – dá até pra entender. Mas daí a essa situação ficar se repetindo pra sempre é demais, né? Juro, não tem UM livro em que o Hastings não duvide do Poirot por causa dos métodos meio loucos dele. Mas me fala uma coisa. Se o Poirot SEMPRE usa os mesmos métodos, não era pro Hastings ter se acostumado?
Outra coisa. Hastings é um pilar do conservadorismo e decência ingleses do início do século passado. Isso significa que ele fica escandalizado toda vez que Poirot lê uma carta de outra pessoa, mente, muda coisas de lugar para enganar possíveis assassinos ou ouve uma conversa atrás da porta.
Gente, Poirot é um DETETIVE. Ele é DO BEM. E para descobrir assassinos, espera-se que uma coisinha à toa, como ler cartas dos outros, seja meio que essencial, não?
Watson viveu na mesma época conservadora e nem por isso tem tantos pudores. Ele sabe que o cavalheirismo nem sempre pode ser mantido quando se lida com criminosos.

Vocês vão dizer, mas ah, você tá comparando o Hastings com outro personagem, isso não tem nada a ver.
Mas eu digo que Hastins e Watson vieram a público com poucos anos de diferença: as histórias de Holmes foram publicadas em forma de seriado em revista, de 1887 a 1927. Agatha Christie publicou a primeira história de Poirot, COM O HASTINGS, em 1920. A própria autora admite ter se inspirado em Doyle para começar a escrever – quem não se inspiraria? Holmes ditara a moda da literatura policial por QUARENTA ANOS.
O que não significa que o plágio piorado seja a resposta. Com os anos, ela melhorou e o Poirot largou o Hastings e ficou muito mais agradável.

Mas não perdeu algumas das suas manias chatas, como a de chegar perto do fim do livro e ficar se xingando por ser muito burro e não ter visto a resposta da charada antes, ou de fazer um super discurso a todos os envolvidos para revelar o culpado. 

Ele é um bom detetive, considerando tudo, e tirando o Hastings da jogada. Mas não chega aos pés da Miss Marple, que é, junto com a Mrs. Oliver, o alter ego da escritora e uma personagem mais divertida.

Ufa. Parei.

Peter Ustinov foi Poirot em 78, 72 e 88

14 ideias sobre “Divagação: Por Que Não Gosto do Poirot

  1. uma coisa eu concordo com você:
    As cenas do Poirot colocar todos os personagens numa sala e fazer aquele puta discurso dedutório para apontar o assassino, como se fosse o Steve Jobs revelando um novo produto da Apple, é muito clichezão.

    Muito novela das oito. E é SEMPRE assim.

    Mas eu gosto do Poirot. Acho que as histórias são tão interessantes que dá pra relevar o Hastings.
    Mas eu ainda acho que os livros mais legais da Agatha Christie são os que não tem nem o Poirot e nem a Miss Marple.

  2. Puxa vida, acho que no post dos detetives fui eu (ou, pelo menos, eu fui uma das) que dei pela falta do Poirot!

    Olha, apesar de concordar com muito do que você apontou, continuo amando o Poirot… rs. Acho que, quando lemos essas clássicas histórias de detetives – e, aqui, incluo o Doyle – temos que estar prontos para enfrentar esses clichês. Muitas vezes, aliás, são eles que tornam a história ainda mais divertida.

    A Agatha Christie não só abertamente inspirou-se no Doyle para começar a escrever, como disse abertamente que Poirot era inspirado em Holmes. Eu francamente jamais chamaria as referências que ela faz de “plágio piorado”… Trata-se de uma referência claro, considerando que Holmes e suas aventuras já eram tremendamente populares na época…

  3. Eu AMO Hercule Poirot e simplesmente discordo de TUDO que você publicou. Afinal, se você odeia tanto o Poirot e o Hastings(bem diferente de Watson e as melhores histórias da Agatha Christie é ele quem narra) porque resolveu postar algo contra eles??
    Eu acredito que quem posta, se interessa pelo assunto, só acho…

  4. Perguntinhas básicas:
    Se você acha o Poirot “insuportável”, por que lê os livros dele?
    Se você acha que a Agatha Christie inventou personagens tão “clichês” então por que você lê os livros dela?
    Você disse que gosta de outros personagens que não sejam Poirot e Hastings, então acho que a “culpa” não é da Dama do Crime concorda?????
    ein??
    Eu acho,não, tenho certeza que você MORRE de inveja da Agatha por que, afinal, não são todos que possuem o dom de se basear em escritores fantásticos com Conan Doyle e criar seus próprios personagens, crimes, etc.
    Você criticou tanto ela… nossa… tenho certeza absoluta que você não sabe nem escrever uma redação direito
    Acho que você confundiu, não é o Poirot que é insuportável, é você! seus posts, etc!

  5. Caro Anônimo (já que acredito que seja a mesma pessoa nos dois comentários).
    Vamos por pontos?
    1 – que bom que você gosta tanto do Poirot que vem até aqui no blog defendê-lo! Afinal, ele e a Agatha Christie são realmente pessoas tão pouco famosas, ninguém gosta deles, tadinhos. Ainda bem que você tá aí pra me falar que eu sou insuportável e me colocar no meu devido lugar.
    2 – fica difícil você me falar que eu não sei nem escrever uma redação direito quando a sua frase começa com “você criticou tanto ela”. Se eu não posso falar mal da Agatha Christie porque escrevo mal, onde está o seu direito de me encher a paciência com um português no mínimo tão bom quanto o meu?
    3 – vou ter que fazer um post explicando da diferença entre minha crítica a coisas que eu não gosto e minha incrível inveja das pessoas que eu critico? Já comentei pra outro ser extremamente elucidado como você sobre essa idiotice de “não gostou, faz melhor”. Que sono disso!
    4 – leia o post de novo e preste um pouquinho mais de atenção que você vai achar as respostas das perguntas “se você acha o Poirot insuportável, por que lê os livros dele” e “se você acha a Agatha Christie blabla por que você lê os livros dela” no próprio post. E por falar nosso, se você me acha insuportável, porque veio aqui me encher a paciência? Cadê seu super blog? Pela sua lógica, você deve ter inveja de toooodos os meus seguidores e meu blog de imenso sucesso. Ai que sono [2].
    5 – obrigada pelo comentário e volte sempre! Adoro anônimos bravinhos com minhas opiniões desfavoráveis aos ídalos deles. Acho que quando eu for falar mal de Harry Potter o pessoal vai surtar, hein. Da próxima vez, tenta deixar seu nome verdadeiro, link pro seu super blog, etc. Assim eu posso conversar com você direito!
    Muitos beijos invejosos.

  6. Só digo uma coisa: Você já leu o livro “Assassinato no campo de golfe”? Se não, leia! Por que eu estou me sentindo como Hercule Poirot e estou vendo você como M. Giraud.

    Ah! respondendo sua perguntinha mademoiselle, eu não tenho blog, afinal eu já sou bom(a) o bastante, então estou dando uma chance para os que não são tão bons senhorita Giraud 😉
    Um grande abraço! E que venham os melhores 😉

  7. ahh eu vim aqui, não para encher sua paciência, relaxa 😉 eu vim aqui porque eu adoro ler os posts sobre Poirot e também defender meu ponto de vista. A senhora não precisa ficar nervosa, calma.
    Espere um minuto! Você está dizendo que só escreve seus posts para deixar “anônimos bravinhos”? Ah… deu para perceber seu prazer pela escrita e pela leitura… O.o

  8. Concordo plenamente com você Juliana 😉 Esses momentos “clichês” sempre aparecerão nos bons livros de romance policial, apenas pelo fato de explicar tudo direitinho e não restar dúvidas aos leitores!
    abraço!

  9. So não concordo em uma coisa! La li todos os livros do Sherlock e em nenhum momento vi Watson falar ou fazer algo inocentemente que ajude Sherlock a desvendar o misterio! Isso so ocorre nos livros de Agatha com o Poirot!
    P.S Comentei sem querer no outro post…kkkkk!

  10. Eu também prefiro a Miss Marple. Poirot é muito arrogante. Bom saber que não sou a única 🙂 aliás estava buscando no Google se por acaso existia alguém que também achava ele meio xarope, e felizmente achei seu blog. Claro, tem alguns livros bons com o Poirot, mas eu acho lamentável a Agatha Christie ter “reciclado” tantos livros com ele. E ela mesma achava isso. É o que ela escreveu na autobiografia. Mas ninguém concorda, fazer o que né.
    Ótimo blog, cheio de sugestões! 🙂

  11. Eu também prefiro a Miss Marple. Poirot é arrogante demais. É um alívio achar alguém que pense a mesma coisa 🙂 aliás estava pesquisando no tio Google se mais alguém tinha a mesma opinião, e felizmente encontrei seu blog. Lógico que tem bons livros com ele, mas acho lamentável a Agatha Christie tê-lo usado em TANTOS livros. E ela mesma achava isso, está em sua autobiografia. Mas fazer o que, ninguém concorda e ficam loucos se concordamos com ela, né 😛
    Obrigada pelo ótimo blog, cheio de sugestões!

  12. Oi, Joyce!
    Que legal que você concorda comigo 🙂
    Eu sempre achei que o papo da Sra. Oliver, de que ela não suportava o detetive finlandês que ela criara mas que não podia parar de escrever livros com ele porque o público gostava, fosse um reflexo de como a Christie se sentia com o Poirot, mas não sabia que ela falava disso na autobiografia dela. Preciso ler!
    Obrigada pelo comentário e pelos elogios, volte sempre!
    Beijos

  13. Interessante sua opinião, apesar de não concordar! Kkkk

    Eu tenho uma espécie de “paixão doentia” pelos livros em que o Poirot é o nosso querido protagonista. Não conheço o Holmes muito bem, mas pelo que entendi do que li sobre ele, compreendo a intenção da Agatha ao criar o personagem belga. Bom, todo romancista que se preze desse ramo tem seu detetive infalível. E a Agatha desenvolveu um homem que, fisicamente, não é o que chamaríamos de “grande detetive”, que tem disposição para entrar em algum combate ou algo do tipo. Mas, não sei se é prq vejo meu reflexo no Poirot, só encontro qualidades nele kkkk Até os defeitos dele me deixam maravilhado. Ele é simplesmente GENIAL.

    Até gosto da Marple, mas prefiro os métodos do Poirot kkk

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