Divagação: Os Problemas da Ficção Histórica

Outro dia mesmo eu terminei de ler Mistress of the Art of Death, uma ficção policial histórica bastante interessante.
Minha opinião sobre o livro em si está nesse post, mas o que eu queria falar aqui é sobre a questão dos personagens nas ficções históricas que eu ando lendo.

Eu cresci lendo Cadfael, e The Black Arrow, do Stevenson, e Robin Hood, e já cheguei a dar uma olhada nos livros do Cornwell. Claro que os temas presentes em cada livro são diferentes, mas todos têm a questão da História no meio: alguns desses livros têm mais compromisso histórico que os outros – e alguns são mais divertidos que os outros.
E acontece que eu também adoro ler sobre história medieval, o que me dá um pouco mais de noção sobre a ambientação desse tipo de livro.

O que sempre me impressionou nos livros do Cadfael – opiniões sobre eles aqui – foi como a autora lida com a parte da religião. Hoje em dia não temos a menor idéia da influência que a igreja tinha na vida das pessoas da época. E o Cadfael conseguia ver a luz da verdade sem desprezar suas crenças, enquanto a autora também coloca personagens com reflexões interessantes sobre a religião – tanto eclesiásticos quanto “hereges”.
É interessante notar que Cadfael é um monge de meia idade que passou parte da vida lutando nas cruzadas, o que deu a ele uma percepção muito maior da diversidade religiosa no mundo e uma aceitação maior por outros tipos de fé (coisas que não eram raras de acontecer com ex-cruzados).
Mesmo assim, Cadfael tem fé.
Ele reza para que tenha clareza de mente para resolver os assassinatos que acontecem à sua volta, em vez de negar a Deus porque seus colegas são obtusos demais para perceber as coisas com um pouco mais de “terrenidade” e bom senso.
Mais de uma vez Cadfael é acusado de pecados que não cometeu só por fazer coisas impensáveis ao resto dos monges, como andar a cavalo pelo prazer da coisa ou *gasp* falar com mulheres.

Ellis Peters, a autora dos livros de Cadfael, é uma romântica. Apesar dos problemas que as mulheres tinham na idade média não serem omitidos, eles certamente são atenuados: um dos meus livros favoritos, A virgem Presa no Gelo (resenha aqui), fala de uma freira que foi estuprada e morta por um nobre da região e de uma moça nobre que quase sofreu o fim comum de “casamento após consumação forçada” – ou seja, a moça é estuprada e ou ela se casa com o estuprador ou será pra sempre solteira e mal tratada pela sociedade, que considera o estupro como tendo sido culpa dela.

Nesse caso que citei, Cadfael, o personagem principal, tem uma visão bastante moderna para um monge da idade média (mesmo um que tenha passado anos lutando no oriente) e abomina a consumação forçada.
Isso faz sentido dentro do mundo secundário do livro, onde as ações e opiniões de Cadfael são explicadas pela sua vivência.

Já em Mistress of the Art of Death, a autora tem uma visão bastante desfavorável – e muitas vezes realista – da igreja, e os padres são em sua maioria fanáticos reprimidos sexualmente que fazem tudo para proteger as perversões dos membros da mesma ordem.
Além disso, mães solteiras, filhos bastardos, judeus e muçulmanos em geral são considerados menos do que gente, pessoas sem alma e que queimarão no inferno.

Por outro lado, os conhecidos “romances históricos” que são vendidos nas bancas de jornais mostram o amor eterno e romântico entre um nobre varão e uma frágil herdeira virgem – são raros os livros que mostram moças sexualmente independentes na idade média, até porque o desejo pelo homem viril e provedor e a crítica à liberdade sexual feminina perduram até hoje.

Eu sinceramente acho que não era lá nem cá. Os judeus realmente sofreram muito durante a idade média e ainda mais durante a inquisição. As mulheres eram realmente consideradas pessoas inferiores (e muitas pessoas ainda não conseguiram se livrar desse tipo de pensamento) e ainda piores se ousassem ter contato com homens fora do seu casamento. A perseguição aos judeus e a punição às mulheres com comportamento indigno eram realmente abismais. Por outro lado, existiam casamentos felizes e judeus com seu lugar dentro da sociedade.

Só que como fazer para que o leitor se identifique com um personagem em plena idade média?
O autor precisa criar um protagonista gostável, é claro. E para que ele seja gostável, ele precisa ter algum tipo de valor ético que seja parecido com o que temos hoje.

O que geralmente acontece nesse tipo de livro é que os protagonistas são apenas pessoas da nossa época com roupas antigas. No máximo os coadjuvantes são interpretações do que a autora ou autor acredita serem pessoas comuns da época em que se passa o livro.

No final das contas, o que fica é uma leve sensação de irrealidade gerada por essa discrepância entre os personagens que só é realmente sentida por aqueles que, como eu, estudaram um pouco sobre a idade média.

Exceções são raras porém existem, e uma delas é o autor Conan Doyle – ele escreveu dois livros especialmente cuidadosos na caracterização de todos personagens e que até hoje são elogiados eloquentemente.

Também temos os extremos – a Dra. Adelia acima é um bom exemplo.
Ela é uma médica de meados do século XII que não acredita em Deus. 
Isso mesmo, meus amigos, uma cética/atéia/agnóstica ou sei lá o que querem chamar.
Na.Idade.Média.

Preciso falar que isso não existia?
É interessante, no livro, a estranheza que ela sente ao entrar numa igreja e sentir vontade de rezar. Porém essa visão de mundo era alienígena naquela época, por mais que as pessoas hoje em dia a considerem comum.

A fé é uma coisa que não se explica. Os agnósticos são aqueles que querem questionar a fé, enquanto os ateus simplesmente a negam. Algumas pessoas, de grandes grupos religiosos como os evangélicos, ainda possuem a fé cega – e muitas vezes extremista – dos que viviam na idade média.
Mas você criar um personagem que questiona a fé e vive de bem com a vida naquela época é uma incongruência. As pessoas sempre precisam de uma explicação para as coisas, e a medicina precária que Adelia usa para pautar sua vida me pareceu substituir a fé dos outros personagens.

Outra coisa importante que os livros históricos parecem saber pouco como lidar é o sexo.

O sexo, nas épocas favoritas dos autores (idade média, renascença, século XIX), sempre foi um tabu. As mulheres eram reprimidas. O mundo era infinitamente mais machista do que é hoje – com renomadas exceções, como a rainha Elizabeth I – e qualquer deslize por parte de uma mulher resultava numa vida de privações.

Miss Tolerance, personagem de uma série de livros policiais que se passam no século XVIII, é um excelente exemplo do que acontecia: ela fugiu de casa para ficar com o homem que amava (desaprovado pela família dela), mas não chegou a se casar com ele.
Para a sociedade a que ela pertencia, isso só significava uma coisa: prostituta.

Era bem simples, na verdade. Ou você 1) casava, ou 2) ficava virgem, ou 3) não ficava virgem e não casava e era uma prostituta. Havia vários tipos, claro: as cortesãs de luxo, as dançarinas e entertainers em geral, e as putas de taberna. Todas elas sendo consideradas inferiores à uma mulher solteira e virgem ou casada.

Nas crônicas do irmão Cadfael, e um exemplo disso é o livro que já mencionei, essa distinção é bem clara: até mesmo se a mulher não fosse mais virgem por causa de uma violência, ela ainda seria considerada inferior e culpada pela sua situação.

No livro da Adelia, a coisa aparentemente muda um pouco de figura. Ela, como boa atéia que é, parece não se importar com sua honra, e acaba se deitando (adoro eufemismos) com um cara lá que ela gosta, já que ele falou que ia se casar com ela.

Gente. Já que ele falou, né. Isso de uma mina que passou o livro inteiro dizendo como ela tinha entregado sua vida “à medicina” e que iria morrer virgem. E aí aparece o charmosão e ela derrete os joelhos e pronto.

Isso.não.acontecia.

A mulher tinha uma perfeita idéia do que iria ser dito dela caso resolvesse dar antes do casamento – e o homem também tinha uma excelente idéia do que fazer com esse tipo de mulher. A Adelia se mostrou uma ingênua de marca maior nesse ponto – e eu imagino que milhares de outras protagonistas dos romances-de-banca-porno-soft tenham feito a mesma coisa.

Verossimilhança zero.
Não quero com isso dizer que eu concordo com o jeito que as coisas eram antes. Não concordo e acho que hoje estamos caminhando para uma realidade mais melhor pra nós mulheres.
Mas tem outros jeitos de fazer uma boa personagem num livro com ambientação histórica sem fazer dela uma feminista modernosa, sabe.
Sempre existem as exceções (a minha favorita foi Safo de Lesbos, que além de sair cas mina ainda foi uma das únicas que imortalizou a coisa, escrevendo sobre ela) e as mulheres que foram maior que seu tempo.

Mas tem limite pra tudo. A própria milionária que esqueci o nome (nos anos 1910) decidiu nunca se casar porque não queria ser estuprada pelo próprio marido.

Quando se fala do Robin Hood, por outro lado, não importa realmente se era verossímil alguém “roubar dos ricos” para dar aos pobres. O que importa é que, como um bom livro de aventura baseado numa lenda, os personagens façam o que se espera deles: que usem roupas da época, que tenham ambições coerentes e que tenham seu lugar social dentro da ambientação.
Ou seja. Nada de um Robin Hood lutando por liberdade – como a versão com o Kevin Costner tentou fazer (como todo filme de Hollywood tenta fazer) – e sim um Robin Hood tirando dos normandos invasores e entregando na mão dos saxões semi-escravizados. Até podia ser uma tentativa de devolver a terra aos saxões, mas o que importa é que não existiam nações e liberdade e independência. Existiam etnias lutando pela mesma terra.

A acuidade histórica – ou seja, se os fatos ditos históricos que ocorreram no livro aconteceram mesmo ou não – acaba ficando para segundo plano, porque o que importa mesmo, para o leitor, naquele momento, é se o universo criado pelo autor faz sentido.

O rei Henry II da Adelia faz sentido. O rei Stephen do Cadfael faz sentido. Até o rei Henry II do Robin Hood faz sentido, mesmo sendo um personagem completamente diferente da figura histórica (a autora da Adelia acertou melhor a pegada do Henry II). A precisão histórica importa pouco quando existe coerência interna no livro.

No fim das contas o que eu quero dizer é que toda vez que um autor cria a trama, mesmo ela sendo baseada em épocas históricas, a ambientação dele é um mundo à parte, que deve fazer sentido para o leitor como qualquer outro mundo de fantasia.
Esse mundo precisa ter personagens e situações verossímeis para que o leitor se sinta arrastado para aquele mundo.
Eu entendo a necessidade de inserir um protagonista “moderno” para que o leitor se identifique, mas isso não pode quebrar a verossimilhança do mundo.
Alguns bons autores conseguem fazer com que os protagonistas, apesar de serem pessoas com moral e ética de épocas passadas, continuem a ser atraentes para o leitor.
Mas esse são, é claro, os melhores.

Uma ideia sobre “Divagação: Os Problemas da Ficção Histórica

  1. Boa!

    Deve ser mais fácil tratar de tempos de transição e oposições entre religiões que pregavam coisas diferentes… Na época de Artur provavelmente o druidismo ainda era dominante, por exemplo, e o Cornwell é foda.

    Realmente, a época da Inquisição implacável deve ser dificílima de retratar, mas talvez tenha sido bem feito na Catedral do Mar? Afinal, também haviam católicos com bom senso convivendo com os Inquisidores.

    E no “Pilares da Terra” e “Mundo sem fim”, as decisões políticas dos religiosos são muito contestadas. Inclusive a caça às bruxas.

    Acho que a religião católica nunca foi aceita por todos as pessoas que faziam história, homens ou mulheres. Sempre tem um dissidente “abrindo” uma nova seita e inventando uma nova regra.

    No fim, acho que as pessoas sempre foram um pouco parecidas, não somos tão diferentes assim hoje em dia.

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