Divagação: O Machismo na Literatura Fantasiosa

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Daí que eu tenho uma amiga feminista, né, e ela me apresentou o blog da Lola e eu gostei bastante. Nunca me considerei feminista porque sempre achei que essa coisa de “sair na rua pra protestar” fosse ai que sono (admito que estava errada de achar que feminismo = sair na rua pra protestar).
Mas aos poucos fui sendo convencida da minha feministidade, até porque na verdade sempre fui feminista e sou dessas chatas que fica criando discussão no bar com os caras que falam que aquela mina é comível mas não é namorável porque já deu por aí demais.

E ontem vi o excelente documentário MissRepresentation, sobre como a mídia f*de com a imagem das mulheres, e como Hollywood e a TV só pioram a situação, e como é difícil para as mulheres se sentirem suficientemente poderosas para mudar o mundo se estão perpetuamente preocupadas em ser algo que não são.

E aí veio a discussão sobre Jogos Vorazes e ele ser um filme mais feminista porque a personagem principal é uma mulher e não é objetificada como outras protagonistas mulheres nos filmes de hoje.
Porque vamos combinar que, mesmo quando temos uma protagonista mulher nos filmes, elas são sempre gostosas, e lindas, e bem sucedidas, e fodonas e completamente construídas para mexer com a fantasia masculina OU é uma comédia romântica e as mulheres são gostosas e lindas e bem sucedidas e querem é ficar com o homem no final.
Convenhamos que Jogos Vorazes, onde Katniss é uma mulher forte, decidida, não tem medo de lutar pelo que acredita e NÃO está num colete de spandex que mostra o quão ela é gostosa, é um passo ENORME para as mulheres no cinema.

*gasp* ela não usa decote!

E aí comecei a pensar na literatura fantasiosa -para jovens- da atualidade, que bombou depois de Harry Potter e hoje em dia é uma grande fatia do mercado literário. E lembrei da Ursula Le Guin, que escreveu uma das melhores séries de fantasia para o público infanto-juvenil (ou, na denominação gringa, YA, “young adult“) e colocou como protagonista um cara negro porque ela estava cansada de ver só os loiros e brancos participarem dos mundos fantásticos.
Qual a porcentagem de pessoas negras no mundo? E nos Estados Unidos, principal produtor de livros de fantasia e ficção científica? E qual a porcentagem de protagonistas negros nesses livros? E protagonistas mulheres? Depois, a Ursula foi lá e colocou protagonistas mulheres nos seus livros também, porque ela é muito da hora.

Mas voltando à vaca fria, que é o jeito que os livros para os jovens são escritos hoje em dia. Primeiro veio a Hermione. Não chegava a ser uma protagonista, claro, mas era quase uma, com bastante tempo “em cena” e uma personalidade forte.
E o que ela faz assim que entra na puberdade?
ALTERA OS DENTES MAGICAMENTE PARA FICAR BONITA.
E consegue um par romântico logo depois.
Claro, alguns vão falar que 1) o Krum já tinha se interessado por ela antes dela arrumar os dentes dela com magia e 2) ela estava apenas seguindo o padrão social da mulher que quer ser bonita.
Mas gente. Estamos falando da HERMIONE. Ela é a mais inteligente da ESCOLA. Ela é totalmente aquela garota nerd que se recusa a fazer parte do mainstream porque ela se considera superior. Seus dois ÚNICOS amigos são o Harry e o Ron, e a autora deixa bem claro que os três se dão bem porque os três são excluídos: Harry é a celebridade estranha, Ron é só mais um Weasley que nunca vai se destacar e Hermione é uma garota inteligente “demais” e por isso zoada por todo mundo.

Independentemente do fato de que qualquer garota real teria feito o que ela fez com os dentes; independentemente do fato de que o Ron e o Harry só repararam na Hermione como sendo mulher depois que ela ficou com os dentes perfeitos e ARRUMOU O CABELO (ou seja, deixou ele liso); independentemente do fato de que o Krum já tinha gostado dela antes do baile… o livro é um formador de opinião, gente, e a mensagem que ficou é: você pode ser a mais inteligente, a mais madura, a mais esperta, a mais talentosa de TODAS. Mas os homens só vão olhar pra você quando você for BONITA. E homens? Coitados, mas isso não tem nada a ver com eles! Ele são NATURALMENTE atraídos por coisas bonitas, então é LÓGICO que eles só olharam pra ela quando ela ficou bonita.

Gente. Isso é tão machista que fala sério. E ninguém fala nisso. Porque é NATURAL que as coisas sejam assim. Só que não é natural. É pura pressão social.
E aí, quando veio Hollywood, a Hermione ficou assim:

é para os meninos irem ver o filme, gente

Se isso não é objetificação da mulher, eu não sei mais o que é. A internet se encheu de coisas falando como o Ron é da hora por ter ficado com a Hermione no final, e que agora ele não é mais “loser”. Mas ele é aplaudido porque ela é gostosa. NÃO porque ela é inteligente, ou sensível, ou uma das bruxas mais talentosas do mundo. Mas porque ela é bonita e gostosa.

Vamos a outros exemplos. Não cheguei a ler a série Crepúsculo ou a Marcada banida esporádica estapafúrdia, onde admito que as protagonistas sejam mulheres. Mas é fácil ver que a trama desses livros é centrada quase que exclusivamente na busca da mulher pelo homem perfeito.
E quase sempre a grande tensão na trama… é um triângulo amoroso.
A minha grande decepção com Jogos Vorazes é que nos dois livros seguintes, Em Chamas e A Esperança, a Katniss passa a se preocupar o tempo inteiro com a vida do Peeta e menos com tudo o que está acontecendo à sua volta (coisas pouco importantes, como UMA GUERRA CIVIL TENDO ELA COMO FIGURA CENTRAL).
Ela inclusive entra em depressão – eu chamo ficar escondida num canto sem comer e sem ver as pessoas de depressão, ok – porque ela acha que o Peeta está sofrendo muito por ser torturado e que é tudo culpa dela, que era ela quem deveria ter sido capturada e torturada até a morte.

Quantos heróis dos livros e filmes de ação, quando o vilão captura a mulher amada, ficam choramingando pelos cantos? Ah, é mesmo. Todos eles se armam até os dentes para atacar o vilão e pegar a mulher de volta. E a Katniss não faz isso porque é mulher, oras.
ORAS.

Em uma outra série de livros famosinha, Feios, Tally tem que escolher entre ser perfeita ou ser feia (num mundo onde ser normal é feio e onde ser perfeito é ter as feições e o corpo alterados cirurgicamente) e isso gera uma discussão interessante.
Mas logo a tensão romântica se instala: Tally deve escolher entre David e Zane, um deles feio e outro perfeito, já que ambos gostam dela e ela não pode esculher David e ficar perfeita e não pode escolher Zane e ficar feia.

todas mina passa por essa situação

A mensagem é clara. Mesmo em livros de aventura e ação, que são mais comuns do que filmes do mesmo gênero com mulheres protagonistas, a mulher não consegue viver sem um homem. As decisões finais da personagem são afetadas pela situação amorosa dela. E a aparência dela é chave para que a situação amorosa seja resolvida!
Como se na vida real os triângulos amorosos fossem assim tão comuns! Levanta a mão a garota normal que tem um Edward e um Jacob brigando por ela!
Gente, isso é muito absurdo.
É como se a literatura, pra não falar do cinema, estivesse deixando as mulheres com duas escolhas: o homem A e o homem B. As outras decisões não contam. As outras partes da vida não contam. O trabalho, a carreira, os filhos, a família, as obrigações civis, tudo isso nada significa quando você vira vampira e se casa com um homem provedor.
Nosso principal objetivo é ser feliz no amor, e se isso não for alcançado, não chegamos no fim da nossa história.

Até as heroínas mais feministas, como a Lyra e a Laura, que felizmente não possuem triângulos amorosos em suas histórias, terminam o livro com um par amoroso.
As exceções estão nas séries mais underground, como Miss Tolerance e Tiffany Aching, que não têm medo de não se renderem ao mito do príncipe encantado.

Agora vamos falar dos livros com os meninos como protagonistas.
Temos, claro que temos, o romance. Afinal, até o Harry tem sua Ginny. Mas esse não é o foco da história. Esse não é o destino do Harry. Artemis Fowl passou seis livros sem nem uma tensãozinha romântica que fosse, e ninguém reclama disso. Os livros de ficção científica raramente possuem mulheres protagonistas, quanto mais mulheres coadjuvantes. Os detetives dos romances policiais são quase que predominantemente homens, e quando são mulheres elas tem que tomar cuidado para não acabarem se apaixonando pelo assassino – ou são senhoras idosas que já passaram dessa fase.

Percy Jackson e sua amiga estão exatamente no mesmo ponto que Harry e Hermione, onde o herói ainda é o garoto, mas a garota tem permissão do autor para ser inteligente também.

Eu posso contar nos dedos os livros com protagonistas mulheres que não possuem trama romântica paralela. A lista com homens na mesma situação é infinitamente maior.

Quero deixar claro que não sou contra chick-lit e esses romances de banca. Eu até que gosto de alguns. E ainda está pra surgir um desses romances sobrenaturais para garotas que me agrade, mas não custa continuar tentando.
O meu problema é que as pessoas não percebem o quanto esses, e outros, livros são machistas. E limitam o papel da mulher. E limitam as escolhas da mulher.
Quase nada é falado a respeito disso. A mídia lá fora – fora dos livros – já é uma selva onde a mulher nada mais é do que uma aspirante à aparência perfeita para conseguir o homem dos sonhos. Tudo é vendido tendo isso em mente.
Quando essa mensagem é passada para a literatura, estamos causando esse dano em garotas que já deram um enorme passo em direção ao pensamento livre, fora do grupo, longe das séries de TV e de Hollywood. A literatura não deveria precisar disso para vender livros, mas o fato é que precisa, e por isso mesmo que a história de Katniss mudou tanto de tom de um livro para outro, e porque hoje Jogos Vorazes e suas continuações estão no topo da lista dos mais vendidos.
As mulheres aprendem que o romance é ideal na vida e que nossa aparência é peça chave nesse jogo. E consomem produtos de ficção que perpetuam essa idéia.

Isso está errado e deve existir uma conscientização.
Estou só fazendo a minha parte, como prometi.
http://www.missrepresentation.org/

 

9 ideias sobre “Divagação: O Machismo na Literatura Fantasiosa

  1. Flor! Seu texto virou discussão entre os amigos… mas eu estava pensando. A Hermione não coloca seu amor pelo Ronnie acima de tudo e todos, não… No último livro, ela fica com o Harry procurando as Horcruxes quando o Weasley cabeça dura os abandona… e ela já está apaixonada e tudo.

    Ser romântica nem sempre é seguir cartilha machista…

  2. Oi, Sharon!
    Nunca critiquei a Hermione ser romântica ou gostar do Ron, e nunca falei que ela coloca o amor dela por ele acima de tudo. O meu problema é quando ela muda os dentes e alisa o cabelo por magia para ficar mais bonita, e SÓ ENTÃO o RON reparar nela. A Hermione continua sendo a sensata do grupo e por isso mesmo não abandona Harry quando Ron deixa os dois na busca pelos horcruxes. Enfim. Fico feliz que meu texto tenha gerado discussões… E obrigada pelo comentário e pelas visitas!

  3. Eu não acho os triângulos amorosos ou o fato da heroína ficar no final com um homem uma manifestação de machismo, mas sim da ideia de que qualquer pessoa precisa de um par. Além demais, essas histórias são mais para adolescentes que acabaram de sair dos contos de “happily ever after” e naturalmente acham que uma pessoa só é completa quando tem um “amor”.

  4. Marinho, obrigada pelo comentário!

    Mas não concordo com você quando diz que a heroína ficar com um cara no final não é machismo. Quantos livros você conhece que são direcionados ao público masculino (mesmo que infanto-juvenil) que o garoto fica com uma linda menina no final?

    E o fato de que essas histórias são para adolescentes que, como você diz, acabaram de sair dos contos de fadas é exatamente o problema: as meninas acabam continuando no pensamento de que o feliz pra sempre existe. Esses livros as estão ensinando que é normal nossas vidas girarem em torno de conseguir um cara. Enquanto que, nos livros com meninos protagonistas, como Harry Potter ou Artemis Fowl, a trama não gira em torno do amor.

    Enfim. A discussão vai longe…

  5. Gostei muito do seu texto, mas não concordo com a imagem “antes e depois” de Hermione, pois a primeira mostra a atriz interpretando a personagem, mostra a atriz como Hermione e a segunda mostra a Emma, do jeito dela. Se a Emma quisesse raspar o cabelo, seria uma escolha dela e não seria justo postar uma foto da “Hermione Careca”. Porquê não foi postada uma foto da Hermione em Relíquias da Morte, onde ela usa pouca maquiagem, uma trança simples e roupas ainda mais simples, a verdadeira Hermione, e não a foto da Emma, que tem a aparência que ela gosta e faz o que quiser agora que n tem que gravar mais nenhum filme. A primeira Emma é a verdadeira Hermione, a segunda é a Emma, a atriz, a Emma Watson.

    Mesmo assim gostei muito do post, só acho que pecou nisso. 😉

  6. Oi, Eduardo. Obrigada pelo comentário!

    Essa foto já veio assim do Google; a comparação é dos internautas. Ou seja, é muito difícil para os espectadores separarem a personagem Hermione da pessoa Emma. Tanto é que tem ator de novela cujo personagem bate na mulher e é xingado na rua. A Emma cortou o cabelo logo após o final da filmagem do último filme da série; essa foto que eu coloquei é de antes. Eu acho que essa imagem de garota sexy da Emma foi usada sim para atrair público masculino para o cinema, independentemente de se a imagem foi pensada pela Emma Watson ou por um agente dela. E é esse uso que eu critico.
    No fim das contas acho que concordamos, né?

    Abraços!

  7. muito bom o seu texto, nunca tinha parado pra pensar sobre isso, infelizmente enquanto a sociedade, ou melhor as mulheres não mudarem o sei jeito de pensar, os livros, os filmes e a mídia em geral continuará a vender essa ideia. Que é um ideal rentável para eles né.

    Beijos
    http://yumenokoe.blogspot.com.br/

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