Cinco Melhores Detetives

Não se sabe exatamente por que o detetive inglês taciturno ou o detetive americano sarcástico fizeram a cabeça do público. No entanto, é inegável que o gênero não está nem perto de bater as botas.
Aprensento a vocês, então, meus detetives favoritos da literatura e suas deduções incríveis.
Contém Spoilers!

Sherlock Holmes (por A. C. Doyle)
Estilo: Holmes tem uma capacidade cerebral avançada e usa isso a seu proveito, acumulando conhecimento da sua área e ignorando todo o resto do mundo. No entanto, precisa de atividade mental constante ou cai na depressão regada a sessões de música clássica e cocaína. Seu método se baseia nas deduções a partir da observação. Para ele, quando se elimina todas as possibilidades, passa-se a considerar até mesmo as impossibilidades.
Exemplo de dedução: Alguém roubou um cavalo de corrida famosíssimo logo antes do Grande Prêmio. O treinador do cavalo foi encontrado morto a milhas de distância do local do roubo, a casa de campo do dono do cavalo. Ao investigar, Holmes descobre que o guarda da casa foi drogado para que dormisse profundamente, e no entanto outros empregados estavam na casa e ninguém acordou durante a noite do roubo, mesmo com o cão de guarda estando feliz e bem amarrado próximo ao portão. Holmes conclui então que o cachorro não latiu, mesmo com alguém entrando pelo portão e tirando o cavalo dali. Se o cachorro não latiu, foi porque conhecia o indivíduo que perpetuou o roubo. Dali pra frente foi só ver quem se beneficiava com o crime – e quando Holmes encontra um caderninho de despesas, pertencente ao treinador do cavalo, mostrando que o homem estava endividado, foi só somar as coisas e descobrir que ele estivera tentando sabotar a corrida. Quando ele levara o cavalo para o campo, para aplicar uma injeção dolorosa e barulhenta no bicho, o cavalo se defendera com um coice na cara do treinador. Ponto para o time dos cavalos, e Holmes pega mais um assassino.
Livro recomendado: O Cão dos Baskervilles
No cinema: Holmes foi vivido por diversos intérpretes no cinema, os mais famosos deles sendo Basil Rathbone, nos anos 30/40, e Peter Cushing, nos anos 50/60. Além disso há a reinvenção do detetive para o público moderno feita por Robert Downey Jr, a série americana Elementary, onde Watson é uma mulher, e a adorada série da BBC com Benedict Cumberbatch.

Miss Marple (por Agatha Christie)
Estilo: ela é uma senhora que vive numa cidadezinha do interior da Inglaterra. E mesmo com o que o sobrinho dela classifica como “experiência de vida limitada”, ela consegue dar um couro em qualquer criminoso por aí. Como? Simples: ela compara as pessoas envolvidas no crime com pessoas que ela conhece. Dessa forma, sob a crença de que todo comportamento humano se repete, ela consegue prever as ações dos malfeitores e resolver os mistérios mais incríveis.
Exemplo de dedução: Ao ouvir todos os fatos do crime (Sr Jones, sua esposa Sra Jones e a dama de companhia desta jantaram juntos; todos passaram mal; apenas a Sra Jones morreu; sobrinha do médico atraente na jogada; empregadinha transtornada diz não saber o que foi que causou a indigestão), Miss Marple se lembra de um pastor da cidadezinha dela, que após ter vivido uma vida respeitabilíssima, descobriram que mantinha uma outra família numa cidade adjacente. A “outra” havia sido empregada do pastor e de sua esposa (oficial) por alguns anos. Miss Marple acha que o marido da mulher que morreu lembra muito esse pastor, e pede que investiguem a empregadinha. Dito e feito. Ela havia engravidado de Jones e o ajudara a administrar o veneno que matou a Sra Jones.
Livro recomendado: Convite Para Um Homicídio
No cinema: Joan Hickson viveu a implacável senhora na série da década de 80. Já Geraldine McEwan a interpreta numa série que passou no canal PBS na década passada. Mas Margaret Rutherford é a mais memorável de todas, com os filmes que foram produzidos nos anos 60.

Cadfael (por Ellis Peters)
Estilo: ele é um ex-cruzado que, após chegar à meia idade, decide entregar sua vida a Deus e vai para o convento de São Pedro e São Paulo, na Shrewsbury do século XI. Apesar de não possuir médicos legistas ou tecnologia forense, ele se baseia no seu conhecimento de ervas, ferimentos e comportamento humano para resolver os mistérios que acontecem por ali.
Exemplo de dedução: O nobre inglês arrogante é envenenado, e todos apontam para o enteado, que herdará todas as terras. Mas Cadfael sabe que 1. o garoto não tem o temperamento de um envenenador, 2. o nobre tem um filho bastardo de mãe galesa, 3. no país de Gales, os filhos bastardos tem direito à terra, 4. o filho bastardo do nobre estivera perto da cozinha na noite do crime. Isso tudo e mais uma providencial viagem ao tribunal galês, responsável pela atribuição de terras aos descendentes de falecidos, faz com que Cadfael estabeleça que o filho bastardo, por amor à sua terra, cometera o ato maligno com a intenção de se apresentar como herdeiro de seu pai, já que seu “irmão”, o herdeiro legítimo do morto, estaria preso, acusado do assassinato.
Livro recomendado: Um Gosto Mórbido por Ossos
No cinema: Foi produzida uma série de TV com Derek Jacobi no papel principal.

Archie Goodwin (por Rex Stout)
Estilo: Na verdade, Archie não é a estrela. Ele é o coadjuvante, mas o faz com tanta coragem, rapidez e bom humor que nos apaixonamos por ele na primeira cena e jogamos Nero Wolfe – o detetive para quem Archie trabalha – para segundo plano. Archie serve, como ele mesmo se descreve, como assistente, garoto de recados, saco de pancadas, inflador de ego e irritante particular de Wolfe. Seu trabalho como Wolfe descreve é seguir ordens, seu trabalho como ele mesmo descreve é obrigar Wolfe a colocar o cérebro pra funcionar. A técnica ninja de Archie é chegar na cena do crime fazendo piadas até irritar todo mundo, e depois ir pra casa para reportar as reações das pessoas e ser irritante até Wolfe mandar ele sair dali.
Exemplo de dedução: Archie é pago para ser chato. Ele sabe que, sem ele, Wolfe nunca trabalhará e ele perderá seu emprego. Então suas técnicas para irritar seu chefe são das mais variadas, e sem elas a história simplesmente não aconteceria, pois Wolfe se recusaria a largar seu livro. Exemplos de sua capacidade de ser perturbador: conseguir uma licença de casamento e informar Wolfe (que abomina mulheres) que trará sua esposa para morar com eles na semana seguinte; interromper a refeição de Wolfe (sagrada) trazendo pra dentro de casa um mendigo que diz ter um caso; achar um cachorro na cena de um crime e levar ele pra casa falando que é uma testemunha; e (minha favorita) fabricar provas contra ele mesmo, se entregar pra polícia e pagar um jornalista para colocar no jornal: “ASSISTENTE DE NERO WOLFE PRESO POR ASSASSINATO”. Archie não chega a ser um Hastings, que nunca sabe o que está acontecendo, pois tem um raciocínio rápido como o de qualquer bom detetive. A diferença é que ele diz assim para o leitor: ‘é tão óbvio que você já deve ter descoberto, mas vou deixar para relatar os acontecimentos com exatidão no momento em que eles foram revelados ao cliente’, e o leitor continua sem saber quem é o assassino.
Livro recomendado: Cozinheiros Demais
No cinema: após algumas produções das quais o autor não gostou muito, Hollywood desistiu por algum tempo de tentar uma adaptação. Foi preciso que um ator e produtor apaixonado pela série decidisse trabalhar duro e investir pesado para que a série perfeita fosse produzida. A Nero Wolfe Mystery foi ao ar no canal A&E em 2001 e é genial.

Salvo Montalbano (por Andrea Camilleri)
Estilo: Montalbano é um comissário de polícia que está sempre de mau humor se o tempo não está bom ou se ele não comeu ainda. No entanto, ele tem um sexto sentido policial e uma compreensão do ser humano que compensam o mau humor. Tem uma inexplicável aversão a seu subalterno Mìmi Augello, talvez porque ele cometa a heresia de colocar queijo ralado na massa com frutos do mar.
Exemplo de dedução: Ao receber uma carta anônima dizendo que Anibale Varruso vai mandar matar a esposa porque ela anda lhe botando chifre, Montalbano sente que algo está errado: um corno geralmente ou enche a mulher de pancada ou finge que nada vê – não vai mandar matar a esposa. E se a esposa estivesse com medo, não mandaria uma carta para o comissariado – iria botar a família inteira no meio e colocar panos quentes na situação. Então quem raios havia enviado a carta?
Pensando assim, Montalbano investiga a situação e decide: Verruso é corno sim, mas é corno manso. A esposa o trai com o projetista Agrò. Jogando um verde, ele descobre que havia ocorrido um furto na casa de campo de Verruso e que a mulher o havia obrigado a comprar uma arma.
Confrontando a esposa traidora com a informação de qual teria sido seu plano e a avisando de que será punida caso o marido tivesse a menor gripe, Montalbano fica sem graça ao descobrir que não fora ela quem mandara a carta anônima.
Temeroso do seu papel de ladão de mentirinha, que atiraria no marido, o projetista Agrò “se apavorou, aquele cagão” (nas palavras da senhora Verruso) e mandou a carta para o comissário.
Caso resolvido.
Livro recomendado: Um Mês com Montalbano
No cinema: os livros de Camilleri foram adaptados com maestria pela TV italiana, e seu intérprete é o fabuloso Luca Zingaretti. Cada episódio é uma adaptação fiel de um dos livros da série.

6 ideias sobre “Cinco Melhores Detetives

  1. Gostei dessa lista, vou tentar saber mais dos detetives que eu ainda não conhecia, como o Cadfael (ainda mais que eu adoro essas histórias de mistério que se passam em outras épocas, como a Idade Média =D

  2. Em toda lista existe uma discussão. Nessa certamente é Hercule Poirot.
    Miss Marple over Miss Marple, bah.

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