Livro: Campo de Batalha Terra

 

Desde que me conheço por gente que sou viciada em cinema.
E uma das unanimidades raras no mundo dos cinéfilos é que o filme A Reconquista é um dos piores já feitos na história da humanidade.

Daí estava eu lá, escrevendo meu post sobre traduções de nomes de filmes, e me deparei novamente com A Reconquista (cujo nome original, é claro, é Battlefield Earth, o mesmo do livro em que é baseado) como um exemplo de “tradução” idiota pro nome de um filme.

Quando fui no dia seguinte e vi Campo de Batalha: Terra por um preço módico em um sebo, falei, ué, por que não? Me deu a louca.

E não consegui mais parar de ler!
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o tamanho do livro: um calhamaço de mais de 800 páginas. Num mundo em que qualquer história tosca merece ser “trilogia”, é um alívio ver um livro cujo começo, meio e fim estão no mesmo volume!
Além disso, estava meio nostálgica por ficção científica, e nada melhor do que um livro semi clássico (já que foi escrito no ‘renascimento da ficção científica’, nos anos 80) pra relembrar.
E também o nome do autor me parecia vagamente familiar.

Quando li a introdução escrita por ele, vi que ele escreveu o livro como uma espécie de comemoração de quarenta anos de carreira, que ele acha que a ficção científica na verdade ajudou a comunidade científica a melhorar a ciência e que ele não gosta de fantasia medieval.

Enfim. A história pode ser dividida em cinco partes (apesar do livro ser dividido em umas trinta).
Terl, um dos alienígenas malvados da companhia de mineração que dominou a Terra há mais de mil anos, tem uma idéia genial: irá treinar os animais humanos (que estão quase extintos) a usar as máquinas de mineração, com isso conseguindo um monte de ouro que não será registrado pela companhia. Dessa forma, ficará rico e poderá voltar a Psychlo, seu planeta natal. A primeira parte mostra como um humano, Jonnie, é capturado por Terl e forçado a aprender de uma máquina supersônica. Acontece que, nos mil anos que os psychlos dominam a Terra, os humanos voltaram à idade da pedra lascada, e Jonnie tem certa dificuldade até para aprender a ler.
A segunda parte começa quando Terl resolve capturar humanos de outro lugar, consegue um grupo de 50 escoceses para minar mais ouro Jonnie convence-os a se organizarem para lutar contra os psychlos.
A terceira parte acontece depois da guerra dos humanos contra os psychlos, quando os humanos são obrigados a formar um governo, e um antigo inimigo de Jonnie quase põe tudo a perder ao se aliar a Terl.
A quarta parte é quando outros alienígenas tentam atacar a Terra, a mando do Banco Intergaláctico.
E a quinta parte é quando Jonnie e os outros tem de lidar com o próprio Banco Intergaláctico, uma organização tão ou mais terrível quanto a Companhia de Mineração de Psychlo.

Um livro de aventura e ação, onde os personagens são rasos e lisos como uma folha de papel, esse livro me divertiu e me manteve grudada nele por três dias. Pura diversão descomprometida, é um belo espécime de ficção científica brainless: muita ação, muitas teorias científicas impossíveis mas descritas de forma a parecerem “prováveis”, personagens fodões, personagens malvados, nenhum romance, nenhum conflito pessoal. O ódio que Brown Limper Staffor sente por Jonnie é tão mal explicado quanto o amor de Bittie MacLeod por Pattie – e os personagens vão aparecendo e ficando importantes na trama antes que o leitor consiga se identificar com eles. A mania do autor de contar o que vai acontecer antes de narrar a cena (do tipo, “Jonnie não sabia que, ao tomar a atitude que será narrada a seguir, todos os seus planos iriam por água abaixo” ou “a morte de tal personagem, como verão a seguir, causou uma enorme comoção”) é bastante irritante e faz com que a narrativa perca metade da graça.

O principal é não levar o livro a sério. O nacionalismo norte-americano presente no livro só não dá mais enjoo do que a idéia do livre comércio em oposição à guerra – a solução encontrada pelo herói para acabar com uma guerra intergaláctica nada mais é do que o puro capitalismo selvagem que vemos hoje, mas com o herói deixando bem claro que só chegou a essa solução porque não via mais outro jeito. Se eu fosse levar as idéias do personagem a sério e lesse o livro dessa forma tinha jogado tudo no lixo, porque as idéias capitalistas norte-americanas do autor ficam muito claras.

Mesmo assim me diverti loucamente, e recomendo o livro para todos que gostam de aventura, ficção científica e personagens heróicos maiores que a vida.

Só depois que li todo o livro é que vi que o tal autor cujo nome me era familiar é também o fundador da Cientologia (aquela nova religião que ficou mais famosa depois que o tonto do Tom Cruise e outras celebridades famosetes revelaram ser da seita), que o livro supostamente nada mais é do que uma pilha de alegorias e que, mais supostamente ainda, só ficou na lista dos mais vendidos porque os seguidores da seita eram obrigados pela igreja a comprarem um monte de cópias do livro.
Como eu acho que a Cientologia é um monte de besteiras, e nunca percebo alegorias em livros (ou filmes) de aventura, e quase nunca acredito no que eu leio na Wikipedia, só fiquei um pouco com o pé atrás com essa história de “morte aos psiquiatras” que o autor propõe e que dizem que ele tenta demonstrar no livro: os psychlos são na verdade controlados por uma elite que altera os padrões de pensamento no cérebro deles de acordo com os interesses do governo – teoricamente, o autor acusa os psiquiatras e quetais de fazerem o mesmo com a gente = que cara bizarro.

De novo, não leiam pela alegoria, ou pelo simbolismo, ou por essa droga de religião bizonha que o autor criou. Leiam pela aventura bocó e empolgante que faz com que você devore um calhamaço de 800 páginas como se ele fosse um gibi.
Da hora.

9 ideias sobre “Livro: Campo de Batalha Terra

  1. Nunca tinha ouvido falar sobre este livro!!!!
    Vc sempre consegue me surpreender com suas leituras! A resenha ficou excelente!!
    Esse é o guru da cientologia então?
    Vou ficar de olho neste livro….se pintar em algum lugar por um preço módico, quem sabe?
    Bj

  2. Se eu me meter a ler essa merda, vou odiar mais a cientologia ainda… e eu achava difícil…

    sorry, babe.. eu ainda sou um cientista.. ficção científica tem q ser escrita por alguém q entenda de ciência, senão eu não engulo…

    e salve C. Clarke, Asimov e Verne!!!!!

    metedre

  3. Li esse livro quando tinha uns 16 anos, de modo que tanto a minha compreensão da ciência quanto a capacidade de julgamento literário ainda precisavam passar por um longo polimento – o que, para os fins específicos da leitura, foi bom, pois não sendo muito exigente consegui me divertir pra burro. Sua resenha ficou bem abrangente, cobrindo todos os pontos principais. Achei muito curiosos dois detalhes sobre os Psychlos: o fato de a construção orgânica deles não ser celular, e sim virótica (imagine o que seria se, aqui na Terra, os primeiros organismos complexos não tivessem se formado a partir de seres unicelulares, e sim de vírus!) e de terem cinco dedos numa das mãos e seis na outra, o que fez com que desenvolvessem um sistema numérico baseado no número 11, em vez de no dez, como o nosso. Noves fora a falta de profundidade do livro, admiro autores de ficção científica que conseguem ter sacadas desse tipo: atinar para o fato de que um alienígena, fatalmente, teria caminhos de pensamento muito diferentes dos nossos, e levantar razões plausíveis para isso. Nada mais chato do que um alienígena que, por trás da pele azul escamosa, dos vinte olhos esbugalhados e da floresta de tentáculos ramificados, é descaradamente humano em cada pensamento. Um grande abraço, ó inteligente e divertida Mulher Atômica!

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