Adaptação: The Next Witness

Wolfe desconfortável no tribunal

O Livro

The Next Witness é um conto de Rex Stout sobre Nero Wolfe que aparece na coletânea de contos Three Witnesses.  Junto com The Cop Killer, esse é um dos meus contos favoritos.
Wolfe, um detetive gordo, orgulhoso, rico e gênio, que detesta mulheres e nunca sai de casa, é chamado para depor no tribunal no caso contra Leonard Ashe, um cliente que ele recusou alguns meses antes.

Sem escolha, Wolfe e seu ajudante Archie Goodwin vão até o julgamento, mas durante a sessão Wolfe resolve que é tudo uma palhçada porque Ashe nunca poderia ser culpado. Então ele simplesmente levanta e sai.

Só que ele não pode voltar pra casa, onde provavelmente já tem um carro de polícia esperando por ele, e não pode voltar pro tribunal, ou será preso: ele está “in contempt of court” e é um criminoso por ter ignorado uma ordem judicial.

Então ele resolve investigar o assassinato de Marie Willis, telefonista, e dar um jeito de fazer com que Ashe, que está sendo acusado de matá-la, seja inocentado; tudo isso sem o seu amado escritório e suas orquídeas, sem seu chef internacional servindo as refeições e com a polícia atrás dele.

Eu gosto desse conto porque coloca Wolfe em situações inusitadas; porque Archie está em sua melhor forma; porque conhecemos a casa de Saul e porque a performance de Wolfe no julgamento é impagável.
Uma história rápida, eficiente, divertida e inteligente.

Miss Weltz está à beira da histeria

O Filme

Mais um episódio da série A Nero Wolfe Mystery, que foi ao ar no início dos anos 2000.
A série usa um artifício comum às antigas séries policiais, onde os detetives continuavam os mesmos mas os coadjuvantes eram o mesmo grupo de atores que se revezava para pegar os papéis. Por exemplo, o Lon Cohen de um episódio é o mesmo ator que foi Saul Panzer nesse.
Isso não atrapalha de modo algum. O que atrapalha é a atuação de Maury Chaykin. No outro post sobre essa série eu falei que era fácil ser Wolfe. Aparentemente eu estava errada. Na primeira parte da história, quando eles vão investigar as garotas telefonistas, Wolfe parecia afobado e gritava as perguntas. Não me convenceu: naõ achei intimidador, só achei forçado. As coisas se resolveram quando eles foram para o campo e ator voltou a parecer Nero Wolfe, fazendo perguntas concisas com um ar de quem não está se importando com a resposta. Timothy Hutton fez o que pôde, mas Chaykin, na minha opinião, errou a mão nesse episódio e Wolfe ficou com cara de palhaço.
O elenco de apoio é bom, como sempre, e a não ser pela ambientação do tribunal, onde Wolfe jamais poderia sair sem ninguém perceber, o episódio é interessante.

Filme x Livro

Esse eu não gostei. Helen Weltz estava muito bem, eu admito, e achei o melhor da história, mas Bella Verardi, a chefe das telefonistas, Robina Keane, a atriz, e o próprio Wolfe não me convenceram.
O diálogo entre Verardi e Wolfe no começo é de doer: ambos os atores parecem saber o que o outro vai perguntar na próxima frase e, mesmo que a atitude dela fosse compreensível, a de Wolfe não era. Ele não pareceu surpreso ou incomodado – teve inclusive que falar para Archie: “estou surpreso”.
Acho que para quem nunca leu o conto isso não faria tanta diferença, já que o episódio, como um todo, é compreensível, mas esse diálogo no livro é muito mais interessante: Wolfe faz perguntas que qualquer detetive particular faria e que qualquer pessoa se recusaria a perguntar – ele não estava sendo agressivo, como no episódio – e Bella Verardi estava respondendo como uma garota que esperava as perguntas e sabia exatamente como responder. Ou seja, tanto Wolfe quanto Archie ficaram surpresos.
Mas na série isso não fica claro.
Robina Keane é outro problema. No livro, ela desde cedo aceita a sugestão de Wolfe e sempre parece preocupada com o marido. Mas na série ela está distante e dissimulada, como que para deixar uma grande dúvida no espectador.
Eu sei, eu sou chata. Mas é um dos meus contos favoritos e não gostei da adaptação; está anos luz à frente de algumas heresias que vemos aí no cinema, porém o episódio não me convenceu e não tem o mesmo feeling do livro.
Uma pena.

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