Adaptação: Terramar

 

(não sei onde esse post tava – eu escrevi na época que vi esse lixo mas por algum motivo saiu da publicação; atualizei e estou postando de novo porque a revolta existe e se mantém!)

VOCÊS SABIAM que A Wizard of Earthsea ganhou tradução brasileira? E que sua continuação, The Tombs of Atuan, também já saiu? E que daqui a pouco sai The Farthest Shore?

E vocês SABIAM que um dia fizeram uma “mini-série” pra TV que foi uma adaptação quase criminosa dos livros? Pois infelizmente eu assisti essa traição. E não foi legal.

Contém spoilers revoltados!

Eu queria saber como é possível uma coisa dessas acontecer. Quer dizer, claro que muitos livros são adaptados pro cinema, e quase todos são cortados e mudados etc. Mas alguns dos filmes até que ficam apresentáveis (no caso de Senhor dos Anéis ou alguns Harrys) ou até melhores do que o original (não diria exatamente isso de Huck Finn, mas o fim do filme é tãaaaao melhor que o do livro!).

A questão com essa incapacidade humana que é ‘O Poder das Trevas’ é que o filme é muito ruim! Nós, fãs orgulhosos, perdoamos a Liv Tyler como Arwen por causa da atmosfera perfeita do filme. Perdoamos a indecisão do Treebeard por causa das atuações impecáveis. Perdoamos Merry e Pippin como ‘comic relief’ por causa do arrepio que dá ver Sir Ian McKellen gritanto “You shall not pass!”.
Agora. Não dá pra perdoar um filme que, além de mudar TOTALMENTE tudo o que estava no livro, é ruim de doer!
Esse filme não devia ter sido pensado, escrito, produzido nem exibido! Pra usar os termos de um revoltado no IMDB, como foi que concordaram em gastar dinheiro nessa bosta?

O filme começa com Ged (sim, o nome é esse direto. Sem essa história idiota de nome verdadeiro nem nada. Pra quê?) na sua ilha natal, com uma minazinha que é sua namorada, sonhando em ser um mago. Quem faz ele é o homem de gelo do X-Men. Daí aparece o Danny Glover meio do nada, como sendo o mestre mago de Ged, Ogion, e Ged lê um livro proibido em voz alta, e Ogion manda ele pra Roke, na escola dos magos.

Na escola, Ged fica inimigo de um magrelo chato e amigo de um gordinho simpático, mas tem que sair da escola por ter libertado um monstrengo. Ele e Vetch, o gordinho simpático, decidem ir atrás do monstrengo para salvar a humanidade.
Enquanto isso, em Atuan, num convento onde as mocinhas protegem as chaves do labirinto onde todos os outros monstrengos são mantidos, a sacerdotisa está doente e tem que escolher sua sucessora. Tenar, e quem faz ela é aquela bonitinha do Smallville, é escolhida e acha que não é boa o bastante, mas Kossil, amante de um rei malvado, inventa calúnias sobre Tenar para a madre superiora (uma Isabella Rossellini totalmente mal aproveitada) e Tenar é presa, Kossil sendo a sacerdotisa master e se aliando ao rei malvado, que na verdade quer soltar os monstrengos para descobrir o segredo da imortalidade deles.
Durante todo esse tempo, Ged e Tenar sonham um com o outro.

Enfim. Depois de irem até uma ilha com um dragão – que apesar de ser mega mal feito pelo menos é engraçado – Ged e Vetch chegam até Atuan, e Ged tem que juntar duas partes de um amuleto para impedir que os monstrengos fujam de sua prisão e acabem com tudo o que é bom e certo no mundo. (mas antes tem uma cena ainda em Roke, que o Arquimago tinha sido morto pelo magrelo cuzão mas na verdade estava vivo. não sei se vale a pena lembrar…) Ah! E no fim Ged e Tenar se vêm e se apaixonam à primeira vista (ou não, se formos contar tooodos os sonhos que eles tiveram) e decidem se unir para governar o mundo.

Então vai. Primeiro que virou só mais um filmeco de fantasia classe D. Depois que como assim conseguiram encontrar esse tanto de atores tão ruins (e ainda por cima colocaram todos juntos): sinto muito pelo Glover e pela Rosselini – que coisa essa história de ter que pagar as contas, né.
Terceiro que ninguém merece esse tipo de efeitos especiais, ainda mais hoje em dia. Tudo bem que é um filme pra TV e talz, mas MESMO ASSIM.

Quarto que… bom, acabou com o livro, só isso. Os livros de Terramar são tão, tão, tão legais!!!
Se eu for começar a falar as diferenças, não acabo nunca mais, mas vou falar pelo menos algumas, ou as mais revoltantes…

Ged e Tenar NUNCA tiveram um envolvimento romântico na época em que se conheceram, em Atuan. Tenar NUNCA foi parte de um “convento”, como é mostrado no filme, mas era sacerdotisa de um templo decadente que louvava deuses antigos e ela tinha até outro nome. Aliás, se formos falar em nomes…
Mas enfim, talvez a complexidade dos nomes seja demais para os roteiristas modernos, eu até deixo passar.

Agora ao principal motivo de reclamação da própria autora:
no livro, todos os personagens são negros. Ged é negro. Ogion, Vetch, o arquimago, todos são negros. Na ilha onde Tenar nasceu, que faz parte do domínio Kargad, todos são brancos, têm reis autoritários que se denominam deuses e não acreditam em magia. No resto do Arquipélago, as pessoas são negras, ou no máximo pardas.

E agora, Hollywood? Por que colocar Ged não só branco, mas LOIRO? E o único personagem negro do filme ser um ancião respeitável? Por que o herói NÃO PODE SER NEGRO?

Li um blog muito interessante sobre isso, sobre uma negra norte-americana MASTER revoltada com o fato de terem não só alterado seu livro favorito como também terem mudado a cor dos personagens… assim, sem mais. Bizarro terem feito isso, na verdade!
E aí, quando a AUTORA do livro foi reclamar das mudanças, o pessoal da produção falou que não tinha porque ela se preocupar, porque os públicos do filme e do livro eram diferentes… PÚBLICOS DIFERENTES agora é justificativa pra racismo, tô sabendo.

Mais coisas sobre a trama: o rei malvado não existe no livro. Os monstrengos não são monstrengos, e a maldade presente na narrativa é a maldade dos próprios homens. Ged realmente ‘desperta’ um ser maligno, mas este ser nada mais é do que a representação negativa do próprio Ged.
O dragão é traiçoeiro, sim, mas diz a Ged a verdade: para acabar com a sombra, ele deve nomeá-la, e dessa forma poderá controlá-la.
No fim, quando Ged fica frente a frente com essa sombra, o nome que ele pronuncia é o dele mesmo, e a sombra se une a ele, fazendo dele um ser completo.
E sim, ele vira Arquimago. Ele é o master blaster fodão plus da história. Ele fica com a Tenar no final. E ele salva o mundo.
Mas, como diz a Lisbela, faz TANTA diferença saber como, com quem e onde acontece porque o quê acontece todo mundo já sabe…
Triste. Muito triste.

Se você gosta de filmes podreiras e não tem a menor idéia do que seja Terramar, pode até se divertir com esse filme. Mas pra quem já leu um livro da série que seja, aí não dá.

Aqui tem o texto da autora dos livros reclamando disso tudo: LINK.

O Poder das Trevas (The Legend of Earthsea) – 2004 (mini-série de dois episódios)
de Robert Lieberman
com Shawn Ashmore, Kristin Kreuk, Isabella Rosselini, Danny Glover

Uma ideia sobre “Adaptação: Terramar

  1. É a segunda vez que tento colocar esse comentário aqui! MAS EU NÃO DESISTIREI!

    Então, achei muito absurdo trocar a COR do personagem, não nos resta nada pra pensar além do fato de que os produtores pensaram que um filme com um herói braco ia dar mais dinheiro, vc não acha?

    Puta absurdo a lá regina de IPT, não é mesmo?

    Por esse post, eu fiquei com muita vontade de ler o livro (que se vc tiver eu quero emprestado) e passar longe dessa adaptação!

    Te adoro rê, baixa as musicas do meu blog, vc vai gostar!

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