Adaptação: Orgulho e Preconceito (2005)

Que essa é uma excelente adaptação do famoso livro de Jane Austen todo mundo sabe. E aqui vou tentar descobrir as razões para o filme ser tão bem sucedido nessa tarefa.

Em toda adaptação que se preze, alguns elementos da obra original precisam ser mantidos para que o objetivo da história seja o mesmo. Orgulho e Preconceito, sendo uma das obras mais adaptadas para o cinema, tem, no entanto, duas adaptações muito famosas: a série feita pelo canal britânico BBC, em 1995, e o filme de Joe Wright de 2005. Vou começar falando desse último, já que é um dos queridinhos da geração, conta com muitas estrelas no elenco e levou muita gente para os livros.

A história que todos já deveriam conhecer é a da família Bennet: no início do século XIX, com pouco dinheiro e cinco filhas, fica óbvio desde o início que a esperança do futuro das meninas é no casamento com um homem rico. Quando Mr. Bingley, um jovem cheio de dinheiro e muito bem apessoado, aluga uma mansão na região, Mrs. Bennet, a mãe delas, imediatamente decide que ele deve se casar com uma de suas filhas. Enquanto a mais velha e mais bonita, Jane, de fato chama a atenção do famoso Mr. Bingley, a segunda filha se desentende desde o início com o melhor amigo de Mr. Bingley, o insuportável (porém muito rico) Mr. Darcy.

Com essa breve descrição, que é na verdade insuficiente para mostrar a genialidade do livro, vamos para os méritos e deméritos dessa adaptação.

O primeiro problema é infelizmente o fato de ser um filme: com pouco mais de duas horas de duração, não dá tempo de conhecermos os personagens e as circunstâncias tão queridos. Quem sofre mais com isso é Mr. Wickham, que, apesar de ganhar um ator devidamente charmoso e bonitão, fica com pouco tempo de tela. Mal percebemos o flerte com Elizabeth, o noivado com Mary King e as pequenas dicas da Lydia. Por outro lado, em apenas duas horas, o filme é capaz de mostrar as particularidades da maioria dos personagens e, afora o já citado Mr. Wickham, é incrível como o roteiro define tudo em poucas cenas de forma eficiente. Aí o que nos faz sofrer é o fato de que o filme acaba cedo demais: queremos ver mais dos personagens e mais da história.

O ponto alto dessa adaptação é o casting: atores e atrizes tanto novatos quanto experientes entregam performances excelentes – o responsável por isso é em parte o diretor, que colocou todo mundo num laboratório longo para criar laços entre as pessoas. O resultado é que a família Bennet nunca pareceu tão unida e orgânica. Jane de fato é mais bonita do que Elizabeth, mas o trabalho incrível da Rosamund Pike faz com que ela tenha a dose certa de timidez risonha que é exatamente a Jane do livro. Já Matthew Macfadyen, apesar de bonitão, não consegue ter muita profundidade com sua cara séria – mas é devidamente alto, claro, e é o que basta. Não podemos esperar sempre um Mr. Darcy como o que Colin Firth reinventou.

Os diálogos, por tentarem ser mais atuais e capturar os espectadores modernos, perdem um pouco da formalidade, mas também fica tudo bem: a irreverência de Elizabeth fica explicada, e a falta de jeito de Darcy de lidar com ela também. Fica claro pelas cenas em Pemberley que os dois se consideram amigos, apesar de tudo, pela forma familiar com que se tratam. E Mrs. Gardiner percebe.

Um detalhe que fica pouco claro é a decisão de Charlotte. Ela parece apenas desesperada e de fato impressionada com a grandiosidade de Rosings, quando no livro ela é muito mais cética e conformada. Mas, como sempre, é só um detalhe, que não afeta em nada o andamento do filme.

Ao contrário de muitas adaptações que eu comento por aqui, essa é não só excelente como também até deixo você ver em vez de ler o livro! O livro não é fácil de ler, pela linguagem chata de duzentos anos atrás, e o filme contém todos os pontos principais da trama e além disso é fiel aos personagens. Ainda por cima, tem um elenco excelente encabeçado por gigantes como Judy Dench, Brenda Blethyn e Donald Sutherland, e um figurino e sets impecáveis baseado em pesquisas minuciosas de época.

Um filme imperdível com uma história das mais fofas: recomendo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *