Adaptação: O Livro da Selva

Eu vi outro dia num site cômico porém confiável a lista de 7 filmes da Disney baseados em histórias para maiores de 18 anos.
Um deles era The Jungle Book, que no Brasil virou Mogli, O Menino Lobo.
E eu vou explicar o fato desse desenho tão bonitinho ser tão absolutamente diferente do livro em que foi baseado.

O Livro
O livro conhecido como “The Jungle Book” é na verdade uma coleção de contos que depois foi publicada em forma de livro. Entre os contos, se destacavam os que contavam a história de Mowgli, um bebê indiano que foi adotado por lobos.
O autor do livro, que viveu na Índia por quase 10 anos como correspondente de um jornal inglês, inspirou-se em lendas locais – e em fatos reais – para criar sua história sobre o menino-lobo. O conto mais famoso chama-se “Os Irmãos de Mowgli” e é a história de como o garoto foi achado por lobos após seus pais terem fugido do ataque de um tigre, e como ele é aceito na alcatéia de lobos através das palavras de Bagueera, a pantera negra, e Baloo, o urso que ensina as leis da selva aos filhotes de lobo.
Ao final do conto, dez anos depois, Mowgli não é mais aceito entre os lobos, que,  influenciados por Shere Khan, o tigre, querem matá-lo ou expulsá-lo da selva. Sob as instruções de Bagueera, Mowgli rouba  um pote de carvão em brasa da aldeia de homens mais próxima e o usa para espantar Shere Khan e salvar a vida dos lobos que o acolheram.
Depois ele diz que já que seus irmãos lobos não o querem mais, ele partirá para a aldeia e tentará ser um homem.

O Livro da Selva é um dos meus livros favoritos, não só pelas histórias fascinantes que estão ali mas também pelo incrível talento do autor, que apesar de ter idéias controversas para hoje em dia, foi um dos maiores escritores da sua geração. Outros contos igualmente bons permeiam o livro, nem todos eles sobre Mowgli, mas a história do garoto é a única que se continua através dos contos, e podemos ver a dificuldade de Mowgli de crescer, enfrentar o mundo e descobrir afinal a que mundo pertence como sendo a de cada um de nós. Uma obra prima da literatura universal.

O Filme
Inúmeros filmes foram feitos baseados nos contos – inclusive um muito legal que aproveita a trama de um dos meus contos favoritos e coloca Mowgli numa caverna de tesouros de um marajá numa cidade perdida – mas sem dúvida o mais famoso deles é a versão da Disney, cheia de músicas e personagens divertidos.
Mogli é encontrado por lobos, que o salvam do tigre Shere Khan, e é criado entre os lobinhos. O urso Baloo ensina a ele que a vida será mais fácil se nos preocuparmos com “somente o necessário”, os macacos dançam e cantam para dizer que na verdade são como humanos e os abutres e Kaa, a píton hipnótica, se aliam a Shere Khan para transformar o garoto em comida de tigre.
No final, Mowgli espanta o tigre com um galho que pega fogo por causa de um raio, conhece uma garotinha no meio da floresta e a segue para dentro da aldeia, enquanto Bagueera e Baloo lamentam e aplaudem essa decisão ao mesmo tempo.
O filme é adorado por crianças no mundo inteiro, e a Disney faz um trabalho muito bom de deixar a vida na selva com uma cara muito divertida. Afora as críticas sobre – de novo – racismo, que mencionam o fato de que os macacos são dublados por negros (“somos como você”, diz a letra…) o filme é em geral considerado um belo desenho sobre o processo de crescer e descobrir o seu lugar no mundo.

Livro x Filme
Devo dizer que o tema do filme acaba sendo o mesmo do livro: o personagem principal quer apenas encontrar seu lugar no mundo.
Mas, fora isso, houve a tradicional mudança de índole de diversos personagens (Kaa, a serpente, é uma das melhores amigas de Mowgli no livro, e Hathi, o elefante, é considerado o animal mais sábio da floresta).
É claro que não se pode esperar o mesmo clima de vida selvagem num livro para adultos e num desenho para crianças da Disney, e eu acredito que, como desenho para crianças, o filme é bastante competente. Mas para quem é apaixonada pelo livro, como eu, não dá pra negar que muitas das mudanças eram desnecessárias, e que manter os personagens do livro era talvez ainda mais interessante.
Mas é claro que não culpo a Disney. Traduzo o artigo do site Cracked.com para aqueles que não se importam com spoilers, e desafio qualquer um de vocês a sugerir uma adaptação válida, para crianças, no estilo Disney, de uma história como essa.

O Final Feliz da Disney
O filme segue a história de Mowgli, um bebê que acaba na floresta é vira amigo de predadores falantes. Depois de evitar o mundo dos humanos por anos e passar a maior parte de sua infância sendo maneiro na floresta, Mowgli tropeça numa aldeia e é instantaneamente seduzido por uma garotinha de olhos bonitos. A garota dá uma piscadela e Mowgli desaparece na aldeia para sempre, vivendo feliz pra sempre com seu próprio povo e deixando Baloo o urso e Bagheera a pantera negra comendo poeira.
Sobem os créditos! 
O Final Original
O Livro da Selva original é um conto por Rudyard Kipling, um homem com uma intolerância surpreendente a qualquer coisa que lembre o espírito Disney. 
Na versão de Kipling, quando Mowgli decide retornar à sociedade, a sociedade não está tão certa de que o quer de volta. A aldeia para a qual Mowgli tenta retornar manda-o de volta à floresta, e o casal que foi gentil ao recebê-lo como filho é torturado como feiticeiros.
Em resposta, Mowgli recruta o elefante Hathi para ajudá-lo. Mas a questão é que no livro Hathi não é o major esquecido e fofo do filme.
Não, ele é um velho elefante cheio de cicatrizes e sede de sangue, que só quer saber de se vingar dos humanos por um velho ferimento recebido numa armadilha. A “ajuda” que Mowgli recebe de seu velho amigo é a destruição de toda a aldeia. É isso aí. O adorável garoto protagonista cujas palhaçadas te fizeram rir quando era criança recruta seu amigo elefante para, juntamente com Bagherra e um grupo de lobos, descer na aldeia como uma tempestade e destruir tudo até o último tijolo.
Todas as casas são pisoteadas até virar pó, mantimentos são destruídos, os lobos fazem o gado todo fugir e a querida Bagheera mata os cavalos.
No final das contas, são não somente mídias diferentes como públicos-alvo completamente diferentes. Mas o que eu posso dizer é que cresci ouvindo a história original – com direito a destruição de aldeias e tudo – e sou uma pessoa perfeitamente normal. Acho. =P

Uma ideia sobre “Adaptação: O Livro da Selva

  1. Então, sempre tem essa questão da adaptação de livros- para adultos – pela Disney. Não é nem tanto pela adaptação que eles fazem em si, mas muito mais pelos livros que eles escolhem para adaptar. Posso falar isso em relação a três casos bem distintos de livros que li, e também vi os filmes da Disney.

    Primeiro, em relação a “Peter Pan”, é meio estranho, porque esse de fato era um livro tanto para adultos quanto para crianças. Na minha opinião, a Disney poderia ter feito uma boa adaptação, sem ter que “censurar” muitas partes (diferente de Mogli), mas eles erram um pouco o tom, acabam não captando a essência da história do livro, que é muito bonita. O autor de “Peter Pan” escreveu a história para consolar três crianças orfãs, cujos pais eram amigos dele e ele ficou com a guarda, então o livro é lindo, mas com alguns toques meio melancólicos sobre amadurecimento. Em suma, acho a adaptação da Disney medíocre, e que ela estraga uma ótima história – tanto que eu detestava o filme, mas quando li o livro, amei!

    Quanto a “Alice no país das maravilhas”, achei que a Disney fez uma adaptação bem inteligente (estou falando do desenho animado, não do filme recente do Tim Burton). Conseguiram misturar elementos dos dois livros, traduzir um livro para adultos em uma linguagem mais infantil, e captaram bem a essência (o nonsense). Além disso, para mim, na hora de “enxugar” escolheram as melhores passagens do livro para o filme.

    Agora, o caso óbvio de escolha bizarra de história para adaptar pra desenho animado é “O corcunda de Notre Dame. É ÓBVIO que a Disney não devia tentar fazer um desenho animado dessa história – é uma história super para adultos, é uma tragédia, tem muito a ver com discriminação e preconceitos, e no desenho animado a história ficou completamente descaracterizada e BIZARRA. Estragou totalmente o livro. Argh.

    E agora que li o post, fiquei morrendo de vontade de ler “O Livro da Selva”!

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