Adaptação: O Jardim Secreto

O Livro:
O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett – 1911

Esse clássico da literatura juvenil fala da mal-humorada, feia e sem graça Mary Lennox, que após a morte de seus pais num surto de cólera na Índia vai morar na desolada mansão de seu tio na Inglaterra.

Acostumada que estava a ser rejeitada pela mãe e mimada por suas Ayahs indianas, Mary é um perfeito monstrinho, que quer tudo do seu jeito e tem chiliques histéricos quando não é agradada em tudo.
Na casa do pastor onde ficou até que fosse posta num navio para a Inglaterra, as crianças a apelidam de “Dona-Mary-do-Contra” (Mistress Mary Quite Contrary), e ela faz por merecer.

Chegando em Misselthwhite, a mansão do seu tio, ela é deixada de lado em um dentre as centenas de quartos vazios – o senhor seu tio, ela é informada, não irá vê-la; ele vive trancado em seu estúdio ou viajando pela Europa desde que sua esposa – irmã do pai de Mary – faleceu.

Deixada a sós, Mary tem como companhia apenas a falante criada Martha, que com sua disposição tranquila e otimista logo consegue que Mary, mesmo a contra gosto, se interesse por suas tagarelices.
É através de Martha que Mary começa a reviver, já que nunca se interessara por outra coisa que não em si mesma, e é através de Martha que Mary ouve falar de Dickon: irmão mais novo de Martha, ele vive correndo pelos campos cheio de animais de estimação.

Aos poucos Mary vai também fazendo novos amigos, mesmo que lentamente e com certa relutância: Ben Weatherstaff, um velho e ranzinza jardineiro, um pequeno pássaro que a conquista com sua cantoria, e o próprio Dickon, que logo aparece para lhe fazer companhia.

E é então que Mary ouve falar do misterioso jardim que pertencera à sua tia, que fora trancado há dez anos quando da morte dela e onde ninguém jamais entrou desde então.
Quando, numa noite chuvosa, ela tromba com seu primo doente que ela nem sabia existir, as duas crianças trocam segredos sobre o jardim e passam a reviver aos poucos enquanto planejam travessuras e cuidam do jardim.

O Filme:
O Jardim Secreto (The Secret Garden), de Agniezka Holland. Com Kate Maberly, Heydon Prowse, Andrew Knott, Maggie Smith

Quando seus pais morrem num terremoto na Índia, Mary é levada para morar na desolada mansão de Misselthwhite, onde a severa Mrs. Medlock e a falante Martha são as únicas companhias que ela tem.
Mary, no entanto, logo sai perambulando pela mansão e descobre grandes segredos – como a chave do misterioso jardim murado onde ninguém nunca vai. Ela também fica amiga de Dickon, irmão mais novo de Martha, e conhece Colin, o primo enfermo dela que vive trancado num quarto achando que vai morrer.

As três crianças, sempre em segredo da governanta Mrs. Medlock, passam a visitar o jardim com frequência, e tanto Colin quanto Mary passarão por grandes mudanças.

Aclamado pela crítica, o filme é um favorito entre os do gênero, e fez parte da infância de muitas crianças.

Livro x Filme

Kate Maberly fez um trabalho estupendo como Mary Lennox. Sua cara de mal humorada e de poucos amigos é impagável – e ela vira outra pessoa quando sorri.
O filme é todo feito de detalhes que são cuidadosamente mostrados ao espectador, e com isso pouco do livro se perde na transposição para a tela.
Considerando a dificuldade que a filmagem deve ter causado – afinal, na maior parte das cenas há crianças ou animais ou ambos – o filme é de um realismo e fantasia memoráveis.
Heydon Prowse e Kate Maberly, como Colin e Mary, têm uma química impressionante – ambas os personagens são crianças pouco acostumadas a companhias da sua idade, e os pequenos atores conseguem perfeitamente explorar a seriedade e pouca naturalidade de seus personagens.
A cena em que Colin manda na sra. Medlock e as cenas das brigas entre os dois primos são um show de interpretação que coloca os primeiros Harry Potters no chapéu.

As poucas mudanças feitas no filme ficaram muito boas – por exemplo a mãe de Mary e a de Colin serem irmãs gêmeas, e o terremoto ao invés da cólera que mata os pais dela; o clima do livro no começo fica muito bom, mas seria muito estranho mostrar cenas de mortos por cólera num filme infantil. O fogo e a gritaria do terremoto deram o tom exato à cena no filme – assim como a câmera, que nunca foca diretamente nos pais de Mary, consegue dar a idéia de distância dos pais de forma muito eficiente.

Maggie Smith como sempre faz um trabalho excelente como Mrs. Medlock, a senhora que cuida da abandonada mansão para onde Mary é levada. Ela traz uma mistura de severidade e ternura que só ela consegue fazer.
Martha é um caso a parte: com muito mais espaço na trama do que seu irmão Dickon, cabe a ela mostrar a Mary como ser uma criança, e ela faz isso admiravelmente bem.

Minha única reclamação sobre o filme é justamente Dickon: um dos personagens mais importantes no livro, ele tem comparativamente pouco espaço no filme – quem não leu o livro não se ressente disso, mas no meu caso foi triste. Claro que Dickon é um personagem complexo e difícil de fazer do qual poucos atores mirins dariam conta.

Mas fora isso é uma estupenda adaptação, que mantém o clima do livro, – o jardim é um caso à parte, feito de maneira maestral na tela – mantém a história e ainda por cima tira atuações maravilhosas de um elenco que serve ao roteiro como uma luva.

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