Adaptação: Huck Finn

O Livro:

As Aventuras de Huckleberry Finn – Mark Twain – 1884

Um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, esse livro é leitura obrigatória na maioria das escolas daquele país – e deveria também ser no nosso – especialmente por sua visão única sobre a escravatura.
Huck Finn é um menino de rua que, após suas aventuras com Tom Sawyer no primeiro livro da série (As Aventuras de Tom Sawyer, 1876), foi adotado por uma viúva e agora é obrigado a ir para a escola e se manter asseado como todas as outras crianças.
Quando o pai dele, um bêbado violento e criminoso, volta para a cidade, Huck entra em pânico e foge da casa da viúva, e depois de outras peripécias decide descer o rio Mississipi numa jangada na companhia de Jim, um escravo fugido.
A jornada dos dois é pontuada por diversos eventos que demonstram a acidez com que o autor considerava a sociedade da época, enquanto Huck, um mendigo porém branco, luta com a idéia de entregar ou não Jim aos oficiais que teriam o dever de enforcá-lo por ter fugido.

O livro é uma pérola de se ler: o autor faz sátira ao dialeto sulista da época ao escrever a forma como as pessoas falavam, faz crítica à escravidão e, ao colocar a narrativa na boca de Huck, chocou a sociedade da época com o número de palavrões e expressões chulas que são naturais ditas por um garoto de rua.

Hoje em dia, como era de se esperar num país boboca como os Estados Unidos, o livro sofre diversas “contestações” de pais que o querem retirado das listas das escolas por causa das palavras chulas ou por causa da descrição de Jim como sendo lento e burro ou por causa do uso da palavra “nigger”, que é um termo ofensivo/proibitivo para se referir a negros em inglês.

Deixando as polêmicas de lado, é um livro que faz pensar ao fazer sátira aos valores sociais que existem até hoje, e pela polêmica que causa dá pra ver que não mudamos muito em tantos anos.
Meu único problema é que, ao final do livro, Tom Sawyer aparece e deixa tudo mais sem graça, e ficamos com a impressão que o autor desistiu do seu tom ácido e decidiu amenizar a narrativa para que as crianças tenham seu final feliz. Na minha opinião, é um livro polêmico que deveria ter tido um final polêmico. Mas mesmo assim continua sendo um dos meus favoritos, de tema imortal e acidez e ironias deliciosos.

O Filme:

Huck Finn, 1993 (de Stephen Sommers, com Elijah Wood, Courtney B. Vance, Robbie Coltrane, Jason Robarts, Ron Pearlman, Anne Heche)

O IMDB lista pelo menos 20 adaptações do livro, sem contar as misturas de Tom Sawer com Huck Finn, as paródias e os filmes exdrúxulos tipo o que transformou Tom em “Con” e colocou Drew Barrimore como melhor “amiga” de Huck.

Mas eu vou falar da mais recente e minha favorita, que tem duas características a serem lembradas: o Frodo faz o Huck Finn e é um filme da Disney.

Portanto, temos um filme infantil perfeitamente legal, com a história de um mendigo supreendentemente limpinho que foge do pai violento e desce o rio Mississipi com um escravo fugido.
Huck e Jim já se conheciam, e Jim conta da sua mulher e da sua filhinha que ele quer resgatar de um senhor de escravos maligno. Enquanto isso, Huck fica na dúvida se entrega Jim como um escravo ou não, já que mesmo ele tendo família ele não tinha o direito de fugir.

Os dois passam por diversas aventuras descendo o rio numa jangada, e a amizade dos dois se fortalece durante os acontecimentos.
No final tudo é resolvido, Jim é libertado e Huck pode correr livre pelos campos, sabendo que poderá voltar para a casa da viúva quando se cansar da vida de mendigo, porque a viúva é muito legal e deixa ele sair correndo pelos campos etc.
Disney, gente.

No entanto, o roteiro é bem amarrado, os atores estão à vontade e Elijah Wood dá um show de interpretação que nos deixa totalmente apaixonados pelo personagem principal.
As lições de moral são dadas porém de forma divertida, o final feliz é crível e a gente termina o filme com um sorrisão no rosto.
Disney.

Livro x Filme
Depois que a Disney queimou todas as suas cópias de Song of the South – um filme tão racista que até a própria Disney fez questão de se livrar dele – os produtores pareceram pisar em ovos ao adaptar um livro que já era por si só polêmico pra começar.
Então a linguagem de Huck foi amenizada, Jim é um escravo culto e inteligente, só os vilões usam a palavra nigger e o final não poderia ser mais feliz: até a bela herdeira, que no livro é totalmente engabelada pelos vigaristas, é avisada por Huck no último instante e consegue reverter a doação de todos os bens do seu pai morto e vive feliz pra sempre.
Mas o filme também tem pontos bons: Elijah Wood é limpinho porém carismático – e NÃO uma alface como tantos atores mirins, graças aos céus – as participações especialíssimas de Robbie Coltrane, Jason Robarts, Ron Pearlman e Anne Heche roubam a cena, e a principal mensagem do livro (pelo menos para as crianças inocentes) é mantida: a cor da sua pele não importa e podemos ser amigos mesmo assim.
Confesso que o final do filme combina mais com o filme do que o final do livro com o resto do livro, se é que vocês me entendem.
Mas são um livro polêmico excelente e um filme infantil competente. Não se podia esperar diferente da Disney, de qualquer forma, e está para nascer o produtor com colhões de mexer no vespeiro que seria adaptar Huck Finn para as telas de verdade

4 ideias sobre “Adaptação: Huck Finn

  1. Tenho uma duvida , depois que li o post,em que você mencionou o filme Song of the South (A canção do sul), e andei pesquisando no google só achei comentários bons sobre o filme e não consegui achar nada racista até onde vi, pois não assisti o filme nem nada.

  2. O personagem principal do filme é o Tio Remus, um escravo negro que passa o filme tranquilão andando por aí e cantando, e falando pros animaizinhos que não vale a pena fugir dos problemas.
    Quem decidiu que o filme podia ser um problema foi a própria Disney,que frente às críticas ao filme resolveu não arriscar a reputação da empresa e tirou-o de circulação.

  3. Será que a polêmica do racismo de Huck Finn nos EUA (país “boboca”… que escolha inusitada de palavra! rs) não seria comparável à polêmica quanto aos livros de Monteiro Lobato aqui no Brasi? (ou seja, nós somos tão polêmicos quanto eles?)

    De toda forma, eu por minha parte sou da opinião que as pessoas deveriam tentar enxergar os livros no contexto social-cultural da época e da região em que foram lidos; também acho que estamos um pouco presos na época da cultura “politicamente correta”. A mera existência de um livro que tenha apologias ao racismo não significa que todos que leiam o livro vão virar racistas… (isso é menosprezar a inteligência das pessoas! rs)

    A parte disso, parabéns pelo blog, eu particularmente gostei dessa parte das adaptações dos livros pro cinema! Se puder dar sugestões, sugiro “O Poderoso Chefão” (melhor adaptação de todos os tempos para o cinema! rs… tenho o livro, se vc quiser posso te emprestar) e “Memórias de uma gueixa” (pior adaptação, acabou com o livro!)

    Abraços e sucesso!

  4. Muito Obrigada, me esclareceu muito , entendi o porque, mas a própria disney foi um tanto quanto estúpida pois,até onde vi sobre o filme dizem que é um filme ótimo, e parabéns pelo blog muito bom!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *