Adaptação: Harry Potter e a Pedra Filosofal

O Livro

Se você não sabe do que se trata, é claro que você acabou de chegar de outro planeta. E boa sorte na Terra!
Mas então fica a minha opinião sobre o livro.
É um “whodunnit” infantil bastante eficiente, e o mundo criado para a ambientação é encantador. O mistério do passado de Harry e seu presente mágico são suficientes para prender a atenção de qualquer leitor, e os coadjuvantes não deixam nada a desejar. A CDF Hermione, o leal Ron, o espalhafatoso Hagrid e o sinistro Snape são personagens que entraram no imaginário de milhões de leitores para sempre.
Não chega a ser uma obra prima da literatura, claro, mas é certamente um dos melhores livros de fantasia infanto-juvenil. A mensagem moral está lá, no lugar certo, os personagens são cativantes, a história é divertida e, fora o fato das crianças fazerem o trabalho dos adultos ao pegar criminosos do mundo mágico, é um livro que não chama o leitor de trouxa idiota e faz pensar.
Mesmo hoje, mais de dez anos depois, ainda me pego lendo as melhores partes – o Beco Diagonal e a cena do Lembrol, por exemplo – e não deixo de me divertir.

O Filme

Aí, quando foram fazer a escala dos atores pro filme, passaram um tempão pra conseguir achar o Harry perfeito. E acharam o Daniel Radcliffe: um fofo, com cara de bonzinho, olhos azuis brilhantes e a cara do Harry Potter – se colocarmos uma cicatriz na testa dele e ignorarmos o cabelo arrumadinho (e os olhos verdes do Harry do livro).
Só que, com essa idéia de achar um garoto fisicamente parecido com o personagem, os produtores deram um tiro no pé.
Porque Daniel Radcliffe é de uma alfaceza dolorosa.

No começo, quando vemos ele apático diante dos abusos dos Dursleys, pensamos apenas que ele é um garoto que interioriza sua dor e sua raiva. Mas quando ele vê uma cobra sair da jaula e dar um tchauzinho pra ele, e quando ele descobre que na verdade é um bruxo, e a expressão dele não sai da mesmice, começamos a perceber que o filme vai ser mais longo do que imaginávamos.
E falar que ele é criança não é desculpa. Tínhamos visto o primor da atuação de Hale Joel Osment em O Sexto Sentido, e depois tivemos Freedie Highmore, em A Fantástica Fábrica de Chocolate, Em Busca da Terra do Nunca e outros, pra colocar Radcliffe no chinelo; existem bons atores mirins e Radcliffe simplesmente não era um deles. Sua cara de espanto era sempre a mesma, os diálogos pareciam de uma decoreba escolar e ele passou pelo filme sem parecer perceber que quase fora esquartejado por um cachorro de três cabeças, esmagado por quedas altíssimas de vassouras voadoras ou envenenado por poções mortais. Radcliffe simplesmente não está com a cabeça no filme.

Mas antes que desistamos de tudo, Rupert Grint e Emma Watson chegam para salvar o dia. Se a gente quisesse por a culpa no diretor falando que ele não sabe dirigir crianças (não é verdade, Chris Columbus é especialista justamente nisso), esses dois atores mirins nos fazem calar a boca.

Ambos estão à vontade em seus papéis e mais do que compensam a falta de personalidade de Radcliffe.
Para compensar, apesar do roteiro movimentado e confuso, os adultos seguram a onda; e que adultos!

Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Robbie Coltrane e John Hurt são apenas alguns mestres da arte que decidiram emprestar o charme ao filminho.
Isso faz com que o filme fique deveras assistível e é possível suportar a tortura que é a interpretação de Radcliffe.

Filme x Livro

Hollywood, querendo partilhar dos lucros astronômicos de J.K. Rowling, logo procurou fazer a adaptação do século.
Mas uma cláusula no contrato idiota que eles assinaram com a autora estragou não só esse mas o filme seguinte também: nada do livro podia ficar de fora. Num esforço inútil de não destruir seu trabalho na transposição para o cinema, Rowling acabou com o trabalho dos roteiristas, que foram obrigados a colocar uma movimentada trama fantasiosa num filmeco de duas horas.
O resultado é um roteiro sem pé nem cabeça que pula partes essenciais para a história em troca de cenas cheias de efeitos: os jogos de quadribol são priorizados, assim como o Beco Diagonal e Gringotes. Mas detalhes da trama foram deixados de lado – e isso, ao longo dos outros filmes, fez com que o último ficasse com rombos enormes que deveriam ter sido preenchidos pelos anteriores.

A história perdeu o encanto, a ação ficou sem sentido, o filme ficou sem graça e o pior de tudo aconteceu: Harry não é o mesmo.
Ele perdeu o sarcasmo, a língua ferina, a ironia, o senso de humor, porque tudo isso está além da capacidade do tapadinho Radcliffe. Os acontecimentos passam por Harry como se ele não tivesse nada a ver com eles e se metesse em encrencas por estar na hora errada no lugar errado.
Mas o Harry dos livros é tão diferente. Ele procura pelos problemas, e aí é lógico que acaba achando. Ele é maduro para um garoto da sua idade – por ter, entre outras coisas, sofrido abuso da família desde cedo – e por isso acaba sendo o líder nato do trio de amigos. Seus sacrifícios são feitos conscientemente, e é isso que impressiona tanto os adultos que os rodeiam: ele sabe que estão roubando a Pedra Filosofal, acha que não tem ninguém protegendo-a, e não hesita em descer pela série de armadilhas que os professores criaram.

O Harry do filme é apático e sem personalidade, sendo completamente ofuscado pelos amigos Ron e Hermione. Como gostar de um filme em que o personagem principal é um idiota?

2 ideias sobre “Adaptação: Harry Potter e a Pedra Filosofal

  1. Tadinho do Radcliffe. Ele era fofo! E com o passar do tempo ele foi melhorando consideravelmente na atuação.

    Lembro de uns boatos de quem ia dirigir esse filme era o Spielberg, mas que ele queria tomar liberdades criativas demais, aí cortarem ele (memória supervaga!).

    Aí fui pesquisar aqui no Google, e achei umas raridades da internet via Wikipedia contando todo o causo e acontece que se o Spielberg fosse o diretor, quem ia ser o Harry ia ser mesmo o Hale Joel Osment. Saca só esse link: http://www.ew.com/ew/article/0,,275704_2,00.html
    (Atenção para o último parágrafo com o antigo nome do então ainda não-lançado quarto livro).

    Abs!
    Lisa

  2. Oi, Lisa! Obrigada pelo comentário… Eu lembro desse boato do Hale Joel Osment. E os fãs surtaram na época porqu elee não era parecido com o Harry.
    Por mais que eu gostasse o garoto atuando, eu concordo. Um loirinho americano interpretando um inglês ia ser complicado, né.
    E quanto à atuação do Radcliffe, claro que melhorou, porque piorar não podia. Mas como os filmes foram exigindo cada vez mais dele, ficou tudo na mesma. Uma alface.

    Beijos!

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