Adaptação: Ever After

 

Ever After (um filme lindinho de 1998 que teve nome em português “Para Sempre Cinderella”) sempre foi um dos meus filmes favoritos, e é justamente baseado em um dos contos de fadas que eu acho mais sem graça. Mistura os dois e vai ta teno: textão. Disgurbe, mas é a vida.

Uma das primeiras releituras de Cinderela dessa geração, e sem querer ser em nada semelhante à Disney, o filme traz uma jovem Drew Barrimore no papel principal e Angélica Houston como uma madrasta mais realista e malvada do que a recente Cate Blanchett.

O filme começa com os Irmãos Grimm já famosos indo visitar uma senhora francesa numa mansão. Ela, que é chamada apenas de ‘majestade’, diz que gosta dos contos infantis que eles escreveram mas “ficou muito perturbada quando leu a versão deles da história da pequena garota borralheira”; então chamou-os para contar a eles a história da verdadeira Cinderela:

Danielle de Barbarac perdeu o pai quando criança, foi tratada como empregada pela madrasta e um dia foi no baile do palácio e se casou com o príncipe.

Eu já falei em outros posts sobre fairytale-retellings que uma história que almeja ser releitura decente de um conto de fadas famoso precisa responder algumas questões se quer que a história seja minimamente semelhante à original. No caso da Cinderela, temos alguns pontos importantes que precisam ser resolvidos. Lembrando que as duas versões mais populares do conto são a de Perrault (fada-madrinha, carruagem de abóbora, ratos transformados em cavalos, pai sem noção) e a dos Grimm (árvore da mãe, pai babaca, passarinhos psicopatas).

1. O Pai: no conto dos Grimm, que é mais levando pro realismo, o pai da menina fica irritado de ter sido deixado com uma pirralha depois que a mãe dela morre. Quando a madrasta chega e começa a tratar a jovena como escrava, ele não se importa e acha que pelo menos é um jeito da criança se ocupar. Já na versão de Perrault, a Cinderela, que tem coração bom, esconde do pai que é tratada mal pela madrasta – e de qualquer forma o cara é totalmente dominado pela mulher e faz o que ela quiser.

Levando isso em conta, toda releitura da Cinderela precisa resolver esse assunto: o que fazer com o pai. Em alguns livros que recontam a história eles tentam coisas diferentes, mas aqui, como nas versões da Disney, ele morre. No entanto, as primeiras cenas em que ele aparece são tão marcantes que ficam parte dominante da personalidade da nossa heroína: Ele era muito ligado à filha, ensinou ela a ler, trazia livros pra casa depois das viagens, conversava sobre assuntos avançados. Ela vive mencionando o pai e não parece forçado, porque o trabalho feito no começo é muito bem feito. Ponto para o pai!

2. A Madrasta: em ambos os contos a madrasta é só a pior pessoa que já existiu na face da terra. No de Grimm ela inclusive manda as filhas CORTAREM FORA parte dos pés pra caber no sapatinho afe! mas as motivações dela são tipo: sou má e fim (que é o que precisava pra ser vilã de contos de fadas, né). Nesse filme Angelica Huston se diverte horrores sendo a Baronesa Rodmilla de Ghent, uma mulher desesperada para subir na vida: depois de ter se casado com o pai de Danielle achando que ele era um partidaço cheio da grana, vai perdendo as posses ao longo dos anos por gastar demais. Ela vê como sorte grande que sua filha mais velha seja tão bonita, já que aí pode casá-la com um cara rico e continuar com seu estilo de vida extravagante. E quem mais rico do que o príncipe?

Seu relacionamento com Danielle é interessante também. Ela se casou com o pai da menina depois de conhecê-lo por pouco tempo, ele morreu semanas depois e ela ficou presa no fim do mundo, com três crianças e uma propriedade rural que ela tinha zero noção de como cuidar. Colocar Danielle pra ficar com os criados de quem a criança já gostava foi a forma mais fácil de ter o que fazer com a menina, manter ela longe das suas vistas e economizar dinheiro com um serviçal. Quando ela se transforma numa jovem cheia de opiniões erradas, a Baronesa só se irrita com ela. Mas quando ela se transforma em COMPETIÇÃO pelo príncipe, aí a coisa pega. A mulher é completamente inescrupulosa e vai fazer de tudo pra conseguir colocar a filha mais velha casada com a realeza. Com a interpretação incrível da Angelica Huston, com as melhores frases nos diálogos (“How can anyone love a pebble in his shoe?”) e um background consistente, temos então um Ponto para a madrasta!

 

3. Cinderela – gente, o mais legal desse conto é que a Cinderela tende a ser tão sem graça que qualquer personalidade que enfiarem nela vai dar certo. Nesse caso, Drew Barrimore faz uma Cinderela feminazi-esquerdopata que é a minha mais favorita no mundo inteiro. Ela leu Utopia. Ela sobe em árvore. Ela salva o príncipe. Ela quer liberdade para todos os criados. Ela é o protótipo da feminista dos anos 90 e isso não faz nenhum sentido mas eu adoro – e em defesa dela, o filme todo é modernoso, né. Eles usam o Da Vinci e o fato de eles estarem vivendo o Renascimento como ponte pra todo e qualquer argumento de que “as coisas não deveriam ser assim” porque progresso etc. Então na minha opinião, passa! O sotaque britânico inventado da Drew é muito fofo, a cena com os ciganos é muito boa, e o mais importante: ela e o príncipe têm do que conversar e dá pra ver o romance dos dois acontecendo da forma mais orgânica que eu já vi em uma adaptação desse conto. Ponto pra Cinderela!

4. Príncipe – ele se chama Henry, ele foi um dos meus primeiros crush cinematográficos e vou defendê-lo! Dougray Scott, no auge da boniteza e charmozice, é sem a menor dúvida o príncipe mais gato da história das adaptações da Cinderela que foram ou serão feitas. Ele faz um príncipe mimado e infantil que não quer se casar com a princesa espanhola de casamento arranjado e daí foge de casa. Quando ele é capturado pelos guardas e levado de volta pro castelo, tromba com Danielle, que está disfarçada de nobre pra salvar a vida de um dos criados que a Baronesa vendeu pra mandar pra América. Ele gosta do discurso dela defendendo os pobres criminosos e se interessa por ela – juro, ela é uma esquedopata que dá muito orgulho! “Nem todos os criados são ladrões, majestade, e aqueles que o são não podem evitar” e aí quando ele pede pra ela explicar ela manda só uma citação de Thomas More pra calar a boca de geral – “For if you suffer your people to be ill-educated, and their manners to be corrupted from their infancy, and then punish them for those crimes to which their first education disposed them, what else is to be concluded from this, but that you first make thieves and then punish them.” Toma essa, coxinhas!!

Só que ele é o total branco hétero mais rico do país e ela não tem paciência pra quem tá começando, e daí trata ele mal, e aí ele fica ainda MAIS interessado – e uma coisa leva à outra e você já sabe o final. A sacada foi colocar as crenças de Danielle no centro do conflito do romance, e dessa forma toda discussão social do filme faz sentido, já que ela está tentando convencer o cara a ser menos babaca e ele está fascinado pela primeira moça que não trata ele como melhor solteiro da temporada, e fica menos entediante do que se poderia supor. No final ele dá aquela escorregada no preconceito de classe – perdoável se considerarmos que ele tinha descoberto que fora enganado pela moça e ainda de cereja foi exposto ao ridículo no meio de toda a nobreza – e tem pouca chance de ser um herói de capa e espada (porque o filme é feminista e a gente não precisa ser salvas obg), mas faz um excelente trabalho como par romântico e personagem tri-dimensional. Pooooonto para o príncipe!

5. Sapatinho, baile, fada-madrinha: é isso que é o mais famoso da história, afinal. Cinderela é uma pobretona que a) consegue roupa chique pra ir no baile; b) usa um vestido incrível e os tais sapatinhos de cristal; c) conquista o príncipe no baile; d) precisa voltar pra casa antes da meia noite porque se não ela perde o disfarce ou algo igualmente terrível. Como o filme tenta se distanciar totalmente da magia fantasiosa, não teve fada-madrinha, nem abóbora, nem nada disso. O vestido incrível e os sapatos decorados com pedrarias, numa alusão fofa ao conto dos Grimm, são da falecida mãe de Danielle, guardados pelo pai dela para quando ela se casar. A Baronesa quer dar o vestido pra filha mais velha usar no baile, mas Danielle (na melhor parte do filme) surta, esconde o vestido e os sapatos, e como punição é trancada no porão pra não poder ir na festa. Daí surge do nada ninguém menos que LEONARDO DA VINCI (o roteiro tem uma explicação, mas gente. Não existe uma explicação boa o suficiente: é forçado demais), que solta a Danielle do porão, fala que ela tem que ir no baile e que ela e o príncipe têm que ficar juntos tal tal. As criadas-que-são-da-família daí ajudam Danielle a colocar o vestido e os sapatos e bora baile.

O baile, gente. Que coisa mais decepcionante. O baile do live-action da Disney pelo menos me compensou todos os anos que lamentei o baile desse filme. Ela mal chega, já toma esporro da madrasta – no filme da Disney eles explicam o rolê com magia de fada, mas aqui não tem jeito, né. A idiotice da Danielle e a pressa do Henry fazem do baile só uma cena dramática, sem vestido, sem dança, sem meia noite, sem nada. Ela foge, humilhada, tropeça e deixa um dos sapatinhos pra trás, e bora pra frente porque ainda tem filme pra ver.

No final, ele coloca o sapatinho nela só de zoeira/quero te conquistar, porque não existe nenhuma dúvida de quem é a moça que ele gosta – passamos o filme todo vendo os dois se apaixonarem justamente para termos a cena final de “uuu finalmente juntos nhoin” – então todo o rolê de baile/sapatinho/fada-madrinha é só periférico. Por um lado, faz sentido, já que o filme quer ser mais realista. Mas daí. Realismo com Da Vinci, sérião? E se, no filme, o conto de fadas sobreviveu por anos e anos justamente com esses três elementos importantes, eles não deviam ter mais espaço na ‘história real’ exatamente para justificar sua existência? São perguntas para as quais jamais saberemos as repostas. Não vai ta teno ponto para a mitologia famosa da Cinderela.

6. Ermãs – nos contos, são igualmente más e não se diferenciam em personalidade. Aqui, pelo contrário, temos Marguerite, linda de morrer, ambiciosa e dissimulada como a mãe, e a favorita da casa. O filme não deixa ela ser de fato uma competidora pelo príncipe, que desde o início só tem olhos para a Danielle, mas em diversas cenas ela é jogada na frente do Henry e isso causa problemas. Do outro lado, Jacqueline é a mais nova, mais feia e mais gorda, mal notada pela mãe e que no final se redime e fica miga da Danielle. Uma coisa que eu gostei muito nesse filme é que TODO MUNDO tem personalidade. Pode ser pouca, pode ser rasa. Mas tá lá. Eu não faço ideia da personalidade das irmãs do filme live-action da Disney, mas não tem como deixar de notar a loiraça do broche no meio dos peitos e a gordinha que ouve da mãe que só tá no baile pela comida. Elas têm características distintas que fazem delas personagens secundários que parecem reais, em vez das caricaturas de coadjuvantes que vemos por aí. Então, inclusive pela interação impecável entre as duas, PONTO pras ermãs!!

E então tem ponto pra tudo quanto é lado. Consequentemente, temos um filme muito fofo e uma ótima adaptação do conto da Cinderela. Vai lá que é só sucesso!

 

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