Adaptação: Cinderella

Já que ontem teve a minha adaptação favorita oficial do universo, hoje temos a mais famosa: o live-action da Disney. Era uma vez que fizeram Malévola (que tem seus pontos fortes e fracos, mas que foi rycah) e descobriram que todos os véi quer rever os filmes que gostava quando criança E que as criança continua querendo ver princesa. Daí que já virou moda e ano que vem tão dizendo que vai ter Pequena Sereia e tudo.

Então vamos ver como que o filme segura a onda na hora da adaptação. Lembrando que esse filme tem a intenção de seguir a história do desenho da Disney de 1950, que por sua vez se baseou na versão fada madrinha/abóbora/meia-noite do conto de Charles Perrault. Então vamos aos itens.

Pai – os pais da Cinderela eram incríveis mas morreram, coitados. Temos algumas cenas de amor familiar e de como eles se gostavam muito mesmo e ambos falam pra Ella que o importante é ser gentil e bom o tempo inteiro. O pai fica viúvo um tempo e daí casa com a madrasta por razões, e logo depois morre, deixando a pobre Ella na pior. Apesar de EU achar essa parte meio sem graça – os pais são totalmente sem sal – as coisas que eles dizem pra Ella definem muito a personagem, e são pais bondosos e felizes que morreram: cobre a explicação de onde eles estavam quando a garota é escravizada. Ponto pro pai.

Madrasta – Cate Blanchett é sem a menor dúvida a pessoa que mais se diverte nesse filme, porque vilãs caricatas são sempre o máximo de interpretar. Só que. Ela tem motivo pra casar co pai. Tem motivo pra querer as filhas co príncipe. Mas alguém me diz aí porque que ela odeia a jovena? R: ela é jovem e bonita e gentil, enquanto a madrasta é velha e feia (haha Cate Blanchett feia, jamais né. Mas anyway tem até uma cena bizarra que ela grita ca Ella) e é isso, gente, não mais do que isso. A antiga rivalidade feminina levada à máxima potência. Então é meio ponto aqui, porque apesar da madrasta ser o melhor do filme, as motivações dela são bem furadas e existem só “porque sim”.

Cinderella – olar textão. Contém trechos da minha resenha original do filme que escrevi logo quando saiu: O povo teve a oportunidade de acrescentar, deixar a coisa talvez um pouco menos trouxa, mas preferiram fazer uma versão muito próxima do conto de Perrault com os adendos do desenho de 1950. Vamos repetir? Mil novecentos e cinquenta. A mesma história. Só que mais bonito.

Teve gente falando que o filme é uma boa porque mostra que características ditas femininas – delicadeza, gentileza, passividade, calma perseverança, etc – também são desejáveis numa heroína, já que hoje em dia só as características masculinas de agressividade, impetuosidade e que tais são valorizadas. Então, de acordo com essa galera ae, falar que a Cinderella é uma idiota porque tem essas características seria diminuir a importância da feminilidade e blás. Mas vamos com calma? Vamos. Essas lindas características femininas de docilidade e bobice eram desejadas às moças de 1950 – por mil motivos históricos que não vêm ao caso porque se não textão – e o desenho da Disney reforçava o esteriótipo. Até aí, ok. A Cinderella é uma das ‘princesas’ mais chatas pra mim especialmente por causa dessa apatia e eterna felicidade diante da adversidade – e a adversidade é importante e quero foco nisso agora. Ela é transformada em escrava. A situação dela é horrorosa nas duas versões da Disney. No filme eles até dão mais motivos para ela não fugir – a casa era dos pais, e ela quer continuar ali porque memórias, amor e tal – mas em ambas as versões ela passa frio, fica sem comida, é abusada verbal e fisicamente. Tudo isso sem perder o rebolado e as esperanças, e tudo isso sem dizer uma palavra descortês às suas algozes. Perceberam a perversidade?

Cinderella não é só uma moça boazinha que trata os animaizinhos bem. Ela é uma moça boazinha que é tratada como lixo e em troca é gentil com suas ‘donas’. E isso é recompensado. É um conselho que ela recebe da mãe – ‘seja sempre gentil’ – e que ela leva pra vida toda, mesmo diante das adversidades. Admirável? Sem dúvida. Um exemplo pas criança? Bem provável. Uma babaca que não consegue desapegar de uma casa e prefere sofrer na mão da madrasta em vez de sair e conseguir ajuda? Certamente. É muito bonito falar que ‘características femininas estão sendo valorizadas’ quando essas mesmas características são marteladas na nossa mente desde criancinha: “mulher de verdade” cuida dos outros, é sempre carinhosa, afável, não ergue a voz nem fala palavrão etc sono. Isso causa desde mulheres em relacionamentos abusivos receberem da sociedade a resposta de que “se você fosse mais de boa ele não seria tão agressivo” até mulheres serem condicionadas a empregos de cuidar, limpar e agradar os outros. Ser boa e gentil não é necessariamente um conselho ruim. É o “sempre” que é o problema. Ponto aqui também, porque apesar de eu não curtir, essa Cinderela é muito parecida com a versão original do conto, e numa adaptação é isso que conta, né.

Sapatinho/Baile/Fada-Madrinha – Check. Quiseram fazer o filme praticamente igual ao desenho – que, de novo, é bem parecido com o conto do Perrault – então nessa parte é tipo idêntico: a fada aparece, faz palhaçada, cria o vestido, a carruagem, os criados e o famoso sapatinho com magia, e bora pro baile porque não temo tempo a perdê. Eu achei a Helena Boham Carter caricata e sem graça, mas aí é só questão de gosto mesmo. Ponto pra mitologia original da história até porque esse vestido é incrível #quero.

Irmãs – não sei quem é quem. Tem a feia e a bonita, eu acho, mas são todas tão parecidas que nem dá pra separar. As personalidades são iguais, as roupas são iguais, as reações são iguais. Sem graça nenhuma, mas né? No conto original é bem assim mesmo. Ponto pro filme no quesito adaptação.

Príncipe: sem graça, sem personalidade, sem motivação pra se apaixonar pela moça a não ser o fato de que ela é bonita e gentil. Ponto pela adaptação.

Daí é isso, gente: esse filme é uma revisão totalmente não-original, que praticamente copia o filme de 1950 (que já é super igual o conto de Perrault de MIL SEISCENTOS E NOVENTA E SETE) e tem os mesmos valores de ‘seja doce e gentil’ e as mesmas cenas de príncipe-baile-vestidão-sapatinho-madrasta má. O fato de que o filme foi um enorme sucesso de bilheteria diz muito sobre como geral ainda gosta desse tipo de história, mas eu? Apesar de achar o filme visualmente impecável, a trilha sonora excelentemente executada e tudo de forma geral ser deslumbrante, eu prefiro coisas novas. Os contos estão aí na internet pra quem quiser ler e o desenho da Disney também: não preciso de mais um filme pra me falar as mesmas coisas. Eu me diverti, claro, e não é um filme ruim; só não faz meu estilo.

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