Divagação: A Genialidade dos Episódios IV e V

Taí o Episódio VIII pra todo mundo falar bem ou mal ou “não sou capaz de opinar”. Fato é, no entanto, que o filme não vai escapar da comparação com as partes anteriores da saga.

Então eu queria começar o rolê falando justamente dos filmes mais celebrados de todos (e os que eu mais gosto, por acaso): Guerra nas Estrelas e O Império Contra-Ataca, como eram conhecidos na década de 80 antes de tudo acontecer. Eu já fui acusada de saudosismo; afinal, os filmes não envelheceram bem: a forma de contar a história ficou lenta, os efeitos ficaram risíveis, a hype ficou grande demais para dois filmes despretensiosos que foram responsáveis, creio que por acaso, por uma enorme mudança de paradigma em Hollywood. Eu tenho fortes suspeitas de que mudar a história do cinema não tenha sido a intenção do criador George Lucas.

Mas teve o que teve, os Episódios I, II e III foram feitos, Jar Jar Binks existiu, e agora temos a série do século 21 com esse segundo capítulo. Acho interessante voltar a falar sobre por que os primeiros filmes foram tão bons. Vou ser polêmica aqui e dizer que os filmes não viraram clássicos imortais por causa dos efeitos, nem por causa dos atores, nem por causa da ambientação nova para a época, nem por causa dos cenários ‘faroeste estelar’ que permeiam a obra.

Os filmes são incríveis por causa da HISTÓRIA. Sim, história. Roteiro. Narrativa. Trama. Diálogos. Tudo isso que aparentemente as pessoas não estão nem um pouco interessadas ( : Velozes e Furiosos OITO). Os dois primeiros filmes da série, lançados em 1977 e 1980, são de uma narrativa impecável que entretém, comove e cativa. Pode até ser que os jovens de hoje em dia, coitados, achem que o filme de 1977 é lento – porque pra quem se acostumou com a nova forma de entretenimento, de fato a coisa demora a engatar – mas se transpusermos a história para um ritmo mais ágil, o povo vai continuar indo assistir. Está aí Episódio VII, que é cópia deslavada do IV mas ‘mais rápido e mais intenso’ e geral foi assistir e gostou, ainda por cima.

Mas quero ser ainda mais específica, então vou falar dos principais pontos. Pra algum desavisado que não tenha visto os filmes, contém spoilers! (mas não do VIII, juro)

1 – Nada pode dar certo: Luke Skywalker é o protagonista que tem a vida de bosta e só toma na cabeça a história inteira. Ele perde a única família que tem. Daí se encanta com os rolê Jedi tudo, Obi-Wan ninja, etc. Obi-Wan morre. Começa a gostar da Leia, ela gosta de outro. Aí ele quer virar Jedi, descobre que nem é tão fácil assim; sofre pra caramba; precisa decidir entre seu treinamento e a vida dos seus amigos. De quebra, descobre que o vilão mor do rolê é pai dele durante uma extração de mão bastante dolorosa; cai no espaço; seu bff praticamente morre. Fim do episódio 5.

Se você tem um protagonista incrível com a vida tranquila, o filme perde a graça. Se toda vez que existe um desafio nós sabemos que o herói vai superar sem maiores problemas, o filme fica chato. Luke sempre teve dificuldades para conseguir o que queria, e essa é a beleza da trama: ele precisa de uma nave – só acha uma nave bosta. Ele vai entregar os planos para Alderaan – Alderaan é destruída. No fim do primeiro filme, quando ele vence, é uma SURPRESA, porque até então ele só se ferrou. Claro que a gente já sabia que ele ia ficar vivo no final, porque era um filme de ação leve que tinha cara de final feliz. E aí o segundo filme faz o que? Inverte tudo!

Eles começam fugindo do império, perdendo tudo, tendo que achar um lugar novo pra se esconder. Luke vai procurar treinamento com um grande mestre, só pra descobrir um anãozinho verde mala num pântano fedido. Han vai pedir ajuda pra um bff, que no final é um traidor. A história está sempre criando expectativas para depois derrubá-las, sempre criando mais dificuldades para os heróis. Eles precisam fugir: a Falcon dá problema. Eles vão se esconder: é um monstro. Isso faz com que o filme não perca o ritmo, e quando tudo fica muito intenso, tó uma cena de beijo pra relaxar.

 

2 – Criação de personagens: você precisa criar personagens incríveis para que um filme de ação funcione. Vai ser explosão, nave, monstro, religião bizarra o tempo todo. Alguém precisa ser normal nesse rolê. Aí temos uma cena em que um branquelo reclamão é obrigado pelos parentes a cuidar da fazenda mesmo querendo viver aventuras: taí; branquelo reclamão é o PÚBLICO ALVO dos filmes de ação. Bingo!

O mestre chega apavorando os monstros e falando coisas sábias. O anti-herói aparece ATIRANDO PRIMEIRO. A princesa mostra a que veio enfrentando o vilão mór sem nem piscar. São pequenas cenas que parecem não ter tanta importância, mas são cruciais para construírem nosso apreço pelos personagens.

Que tal comparar com os episódios I, II e III? Podem ter sido incríveis com aqueles bagulho tecnológico, mas os roteiros e os personagens são lamentáveis.

Os heróis Obi-Wan e Qui-Gon têm sua primeira cena tendo diálogos entediantes sobre política e uma luta com robôs com os quais não nos importamos. A rainha expressivamente troca palavras entediantes sobre política com sapos verdes racistas.  Anakin – que só aparece lá no final do filme – é um moleque irritante que em suas primeiras aparições já solta a memorável fala “eu sou uma pessoa e meu nome é Anakin”.

A história até tenta criar problemas para os protagonistas, mas de forma tão artificial e complicada que os filmes ficam sem sentido algum. Por que Watto não aceitava o inferno dos créditos da república? Dinheiro é dinheiro! Por que mandar a senadora marcada e seu hormonal protetor obcecado para as lindas paisagens de Naboo, que por acaso é seu planeta natal e o local mais óbvio para encontrá-la? Por que Anakin passou dez anos sem ver a pobre mãe e sem se importar? POR QUE PADMÉ MORREU? São respostas que jamais teremos e que são responsáveis, mesmo que não se perceba, pela menor qualidade dos filmes. Se você constrói uma história sem sentido com personagens sem graça, sobra isso aí que vimos.

 

3 – Foco, coerência, exposição: Tudo bem que as histórias se passam em momentos políticos da galáxia criada nos filmes e para isso existe necessidade de alguma explicação. No entanto, o filme precisa de foco para que o espectador consiga seguir a história. Nos primeiros filmes (IV e V), os momentos políticos são menores, com alguns diálogos rápidos aludindo ao ‘senado imperial’ e bora pra frente que tem nave pra explodir. Essas poucas falas, no entanto, são suficientes para que a história tenha um pano de fundo coerente para toda a guerra que estamos sendo forçados a assistir. Se você não quer fazer um filme sobre política, não coloca um monte de político chorando na tela! Ainda por cima sobre problemas que ninguém entende a ração de existirem (quem se importa com a taxação de qualquer coisa em Naboo? Qual a relevância desse planeta pra federação?). Se seu pano de fundo político não pode ser explicado em duas cenas rápidas, ele nem deveria existir. Cenas de exposição de trama (onde as pessoas só estão falando sobre “oh, isso está acontecendo no nosso mundo”) são entediantes, não fazem sentido (ninguém fala desse jeito) e cortam a narrativa, deixando o filme longo e CHATO.

Um bom roteiro (uma boa história) consegue fazer com que todos saibam que existe um império galático maligno e que os rebeldes estão tentando derrubá-lo. Entendo que uma guerra civil entre robôs e soldados clonados deva ser mais complexa do que isso, mas quem decide qual o foco do filme? Exatamente: quem inventou a história. Então não faça uma história de amor com plano de fundo de guerra civil se você não sabe por onde começar essa guerra. O que vai acontecer é o que aconteceu: várias cenas de guerra (legal), várias cenas de romance (mais a respeito abaixo), e várias cenas de discussão política que ninguém acompanha porque não fazem sentido, portanto ninguém se importa.

 

4 – O romance: tudo bem que nem sei se vai estar tendo romance nessa nova trilogia (de qualquer forma sou Poe+Finn pra sempre), mas o que precisamos para ter um bom romance? Pessoas das quais gostamos. E conflito. Um conflito REAL, veja bem. Leia é realeza cheia de princípios. Han é um cara que não se importa com nada. A atração física é aparente, os dois têm personalidades que se completam, estão todos no mesmo barco: mas ambos sabem da treta que vai ser se ficarem juntos: ela não sabe se pode confiar nele, e ele sabe que ter um trabalho regular de marido de princesa não é das melhores idéias. E o C-3PO está na nave, o que deixa tudo mais interessante.

Corta para Naboo com a famosa cena da areia. As conversas dos dois são completamente sem sal e sem sentido. Quando que uma moça igual ela ia ficar com um joveno mané que apoia a ditadura? Quando que ela, que deveria ter um bilhão de pretendentes, ia ficar com um cara que por acaso confessa que matou toda uma civilização de nativos? Não posso ficar com esse cara, mas sou uma moça inteligente, culta e poderosa. Vou engravidar dele em segredo então. E aí agora que estou #chatiada vou morrer porque ele não tão legal quanto eu imaginava e mata pessoas humanas além de povo da areia. Sucesso.

Volta, volta pra história. Se a história não faz sentido, não temos o mesmo investimento emocional com os personagens. Eu vejo cada vez menos histórias com sentido no cinema, e cada vez menos pessoas se importando com isso. Afinal, “é só pra se divertir”. Ok que é só pra se divertir. Mas ano que vem ninguém vai lembrar a diferença entre EP8 e Rogue One, enquanto que geral ainda fala de filmes como Caçadores da Arca Perdida, Duro de Matar, Matrix e Guerra nas Estrelas. Por que isso? Porque eram obras-primas da humanidade com momentos tocantes de desenvolvimento psicológico? NÃO. Porque eram BOAS HISTÓRIAS. Fim.

 

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